A utilização de substâncias químicas na agricultura no Brasil gera preocupantes implicações, já que sete dos dez pesticidas mais utilizados no país são vetados na União Europeia. Embora esses produtos sejam proibidos no antigo continente, ainda assim, companhias europeias os exportam para o Brasil, o que caracteriza o conceito de “colonialismo químico”.
A informação foi divulgada pela geógrafa Larissa Mies Bombardi, que realiza pesquisa no Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), na França.
Conexões de saúde e meio ambiente
A especialista, que há quinze anos estuda o vínculo entre agrotóxicos e a economia global, ressaltou que o uso desses produtos químicos para proteger as plantações contra pragas, doenças e plantas indesejadas resulta em sérios riscos à saúde pública e ao ambiente. É precisamente essa toxicidade que leva à proibição de diversos agrotóxicos na Europa.
“O Brasil se expõe ao colonialismo químico ao aceitar o uso de substâncias que são proibidas na UE”, afirmou Larissa.
“Esses produtos são interditados por serem cancerígenos ou por causarem malformações fetais e outros distúrbios hormonais, sem contar os severos danos que provocam ao meio ambiente,” destacou a pesquisadora.
Confira os dez pesticidas mais utilizados no Brasil em 2023, incluindo os que são proibidos na UE:
- Glifosato e seus sais
- Mancozebe — banido na UE
- 2,4-D — banido na UE
- Acefato — banido na UE
- Clorotalonil — banido na UE
- Atrazina — banido na UE
- S-metolacloro — banido na UE
- Glufosinato (sal de amônio)
- Malationa
- Dibrometo de Diquate — banido na UE
Debate científico
As observações de Bombardi foram apresentadas na última sexta-feira (31) durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), localizada em Niterói, RJ. Este evento sem fins lucrativos reúne estudantes, professores e pesquisadores com o intuito de fomentar a ciência e a tecnologia no Brasil.
Consequências ambientais
A geógrafa relatou que, entre 2009 e 2019, houve uma diminuição de 41% na população de insetos do planeta, e no caso das borboletas, o declínio chega a 53%. Essas estatísticas vêm do Atlas dos Pesticidas 2022, publicado pela Heinrich-Böll-Stiftung, fundação relacionada ao Partido Verde da Alemanha.
“Essas substâncias afetam diretamente os insetos, resultando em uma reduzida biodiversidade, razão pela qual são banidas na Europa”, enfatizou Larissa.
Outro caso alarmante é o do herbicida atrazina, que figura entre os mais comercializados no Brasil e que pode induzir anomalias em anfíbios, como a inversão de sexo em sapos.
“O que implicaria a eliminação das fêmeas de uma espécie?” indagou.
Datas e números alarmantes
A geógrafa mencionou que o Brasil lidera a importação de pesticidas vetados na Europa, com 3 mil toneladas enviadas em 2023, superando a soma de 2,6 mil toneladas importadas pela Ucrânia, Estados Unidos e Rússia.
Além disso, o mercado de sementes resistentes a pragas e agrotóxicos é controlado por apenas quatro corporações, sendo duas delas da Europa: Basf e Bayer, juntamente com a Corteva dos Estados Unidos e a Sinochem da China. Essas empresas concentram 51% do segmento de sementes e 62% do de agrotóxicos, consequência de fusões históricas.
“O sistema capitalista foi moldado de tal maneira que essas empresas dominam a renda gerada pelas terras,” argumentou Bombardi.
No que diz respeito à concentração de terras, ela comparou essa nova forma de colonialismo à escravidão, quando empresas europeias comercializavam humanos em um momento em que a escravidão era considerada inaceitável na Europa.
“Não podemos compreender o uso de agrotóxicos no Brasil sem considerar a questão fundiária”, destacou. “A classe dominante que monopoliza a terra no Brasil continua a estabelecer as regras”, completou.
Caminhos em direção à mudança
Atualmente reside na Bélgica, atuando como pesquisadora no Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas. Larissa deixou o Brasil em 2021, após receber diversas ameaças após a publicação de um atlas sobre resíduos químicos em alimentos brasileiros.
Ela acredita que o Brasil, como uma potência agrícola e um dos maiores consumidores de pesticidas globalmente, deve se estabelecer como líder na regulamentação internacional desses produtos e na promoção da agricultura familiar.
“É fundamental rompermos com esse ciclo colonialista. A conscientização é o primeiro passo para construirmos políticas públicas efetivas”, concluiu.
Regulação atual
No Brasil, em 2023, entrou em vigor a Lei 14.785, que regula o uso de defensivos agrícolas. O registro desses produtos é responsabilidade do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), além de requerer avaliações toxicológicas pela Anvisa e avaliações ambientais pelo Ibama.
A Anvisa esclareceu que cada país tem suas próprias normas para o registro de produtos. Após a concessão, o registro não tem prazo de validade, mas há reanálises agendadas quando surgem indícios de riscos à saúde e ao meio ambiente, podendo resultar em proibições ou restrições.
Desde 2006, 20 reavaliações foram concluídas, levando à proibição de 13 ingredientes ativos, como carbendazim e parationa metílica. Além disso, para seis ingredientes, restrições foram introduzidas, com o caso do lactofem permanecendo sem restrições. Entre os sete ativos priorizados para reavaliação, um já foi banido e quatro estão em análise.
Fonte: Agência Brasil/EBC







