A Fundação Oswaldo Cruz, conhecida como Fiocruz, prestou uma homenagem significativa ao conceder, em 5 de agosto, o título de pesquisadores eméritos a nove cientistas que haviam sido perseguidos e tiveram seus direitos políticos violados durante o regime militar, especificamente em 1970. Essa ação é uma forma de reconhecer a luta desses profissionais, que ficaram conhecidos como as vítimas do Massacre de Manguinhos.
O evento ocorreu no Dia Nacional da Saúde, uma data que também marca o nascimento do renomado médico e sanitarista Oswaldo Cruz, um dos ícones da instituição. A cerimônia foi realizada nas escadarias do Castelo Mourisco, sede da Fiocruz, um local que, 40 anos atrás, ofereceu abrigo a esses profissionais durante a reabertura institucional sob a gestão de Sérgio Arouca.
Reconhecimento e Memória
A ocasião foi muito simbólica, com o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, lembrando que esses cientistas foram afastados da instituição e proibidos de assumir qualquer cargo público devido ao Ato Institucional 5 (AI-5). Eles puderam retornar à Fiocruz em 1986, durante o processo de redemocratização do Brasil. Moreira enfatizou que a reintegração dos cientistas representa um ato político de resistência contra regimes autoritários, reforçando valores essenciais como a defesa da ciência e da democracia.
“A ciência é fundamental para a democracia e refutamos o negacionismo e as notícias falsas que persistem em nossa sociedade”, declarou Moreira.
Os homenageados incluem Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Além disso, uma homenagem simbólica foi feita a familiares de Herman Lent, outro cientista cassado, que já havia recebido o título de emérito em 2004.
Ciência e Compromisso Social
Moreira ressaltou que os pesquisadores não só contribuíram significativamente para a ciência brasileira, mas também formaram novas gerações como professores de pós-graduação. O trabalho deles foi crucial para a consolidação da Fiocruz como uma instituição de excelência em ciência e tecnologia na saúde.
Uma das aulas desta cerimônia foi dedicada à madre Maria de Fátima, da Universidade Santa Úrsula, que apoiou muitos desses cientistas durante os anos de repressão, permitindo que continuassem lecionando.
Conhecendo os Homenageados
Augusto Périssé (1917–2008): Médico e pesquisador que teve sua carreira interrompida pelo AI-5. Reintegrado à Fiocruz em 1986, publicou estudos significativos sobre a bioquímica da Hanseníase.
Domingos Arthur Machado Filho (1914–1990): Formado em três áreas, ele era especialista em helmintologia e voltou ao quadro da Fiocruz em 1986, apesar de problemas de saúde decorrentes de anos de repressão.
Fernando Braga Ubatuba (1917–2003): Após ser preso em 1968, ele se destacou na pesquisa farmacológica e, mais tarde, foi parte de uma equipe que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina.
Haity Moussatché (1910–1998): Médico e pesquisador que introduziu rigor científico na Fiocruz e liderou vários estudos essenciais nas áreas de fisiologia e farmacodinâmica.
Hugo de Souza Lopes (1909–1991): Veterninário e entomologista, impediu-se de retornar ao laboratório após ser cassado, mas continuou a contribuir para a ciência e a educação até o final de sua vida.
Masao Goto (1919–1986): Micosologista que se destacou no estudo de infecções fúngicas. Ele morreu antes de poder assumir novamente suas funções na Fiocruz após a anistia.
Moacyr Vaz de Andrade (1920–2001): Químico que, após um longo período fora da Fiocruz, conseguiu retornar aos seus estudos sobre fungos.
Sebastião José de Oliveira (1918–2005): Pesquisador negro que se tornou uma referência em entomologia e participou de expedições científicas ao lado de grandes nomes da ciência.
Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1905–1990): Médico que teve uma longa carreira docente e foi importante líder científico antes de ser afastado pela ditadura.
Fonte: Agência Brasil/EBC








