Durante o Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, especialistas reforçam a urgência de fomentar a restauração de áreas degradadas nas terras indígenas, enfatizando que o processo vai além de simplesmente replantar árvores ou restaurar a vegetação.
A recuperação destas áreas não só favorece a proteção de nascentes e a segurança alimentar, mas também reintroduz espécies tradicionais, valoriza saberes ancestrais e potencializa fontes de renda para as comunidades.
Contexto Atual
O debate se torna ainda mais crítico à medida que o Brasil se compromete a aumentar suas metas de recuperação ambiental. Na 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação (COP17), ocorrida em Ulaanbaatar, na Mongólia, o governo anunciou a intenção de restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030, abrangendo em parte os territórios indígenas.
Segundo dados do TerraClass 2022, as terras indígenas na Amazônia enfrentam a degradação de cerca de 952,3 mil hectares, principalmente por pastagens, além de 24,4 mil hectares utilizados para agricultura e 18,9 mil hectares ocupados por atividades mineradoras.
Além disso, são identificados 840,5 mil hectares de vegetação secundária, resultando em um potencial de restauração estimado de 1,79 milhão de hectares nas terras indígenas da Amazônia.
Apesar das adversidades, essas áreas são algumas das mais preservadas no Brasil. O Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas de 2026 indica que apenas 1,7% da perda total de vegetação ocorrida entre 2019 e 2025 aconteceu dentro desses territórios.
Diana Nascimento, especialista da The Nature Conservancy Brasil (TNC), salienta que a quantidade de hectares revigorados não é o único indicador de êxito. A verdadeira medida deve incluir a participação ativa das comunidades locais.
“Quando os povos indígenas tomam a dianteira na restauração, a percepção do território muda; deixa de ser apenas uma área a ser replantada para se tornar um espaço interligado à cultura, alimentação e modos de vida de seu povo”, argumenta Diana.
Esse protagonismo altera fundamentalmente o conceito de restauração.
“Não é apenas a questão de quantas árvores foram plantadas ou quantos hectares foram recuperados, mas sim entender quais espécies são relevantes para a comunidade, quais saberes necessitam ser resgatados e como isso pode fortalecer a gestão do território”, detalha.
Definição de Prioridades
A identificação de áreas prioritárias para restauração representa um desafio, visto a vasta extensão dos territórios e a limitação de recursos. Uma área severamente degradada pode não ser a que trará os maiores benefícios para a comunidade.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) criou um sistema integrado de informações que auxilia na tomada de decisões sobre conservação e restauração em terras indígenas.
Esta iniciativa reúne dados sobre degradação, recursos hídricos, biodiversidade, gestão territorial, e vários outros fatores. Desenvolvido em parceria com a TNC, a Coiab e o UK PACT, o sistema facilita o planejamento eficaz.
Guillermo Florez Montero, líder de Ciência de Dados da TNC Brasil, explica que a ferramenta permite combinar variáveis e definir pesos conforme os objetivos do projeto. Uma terra indígena com áreas de preservação e rios pode ser priorizada, mesmo que não seja a mais degradada.
“Regiões com alta insegurança hídrica ou ameaçadas por fogo podem ser priorizadas também, garantindo que modelos personalizados sejam elaborados”, esclarece Florez.
A análise multicritério do sistema permite ao usuário selecionar variáveis e determinar sua relevância, produzindo um índice que ajuda a identificar os territórios que demandam maior atenção.
No entanto, o resultado matemático não deve sobrepor-se à decisão das comunidades.
“O modelo pode sugerir áreas específicas para projetos, mas é fundamental respeitar a vontade das lideranças, garantindo que a iniciativa esteja alinhada com as prioridades do território”, enfatiza.
A ferramenta poderá ser valiosa quando houver disponibilidade de recursos para iniciativas de restauração.
“Em territórios com elevada insegurança alimentar, por exemplo, a restauração socioprodutiva pode ser priorizada, desde que as condições sejam favoráveis”, destaca.
Restauração de Saberes e Alimentos
De acordo com Diana, os povos indígenas possuem um vasto conhecimento que passa de geração em geração sobre sementes, ciclos naturais, cultivo e plantas medicinais.
As mulheres, destaca, desempenham um papel crucial na produção de alimentos, preservação de sementes e na transmissão desse saber.
“Reconhecer esse conhecimento é essencial para resgatar espécies e alimentos tradicionais, fortalecer a segurança alimentar e manter a biodiversidade”, conclui.
Para ela, é fundamental que o conhecimento tradicional caminhe lado a lado com o conhecimento técnico.
“Quando técnicas tradicionais e científicas se integram, soluções mais adequadas para cada realidade podem ser encontradas”, explica.
“Dessa forma, a restauração se torna também um processo de valorização de saberes, práticas culturais e relações com o território”, completa Diana.
Prevenção é Fundamental
Mineração, incêndios e a expansão das pastagens impactam os territórios de maneiras distintas, portanto, as ações de restauração devem vincular-se à prevenção de novos danos e ao fortalecimento da governança territorial.
Criteriosos na gestão ambiental e territorial, o acesso à água, a vulnerabilidade climática e as condições de saúde das comunidades são aspectos considerados pelo sistema criado pela Funai e parceiros.
A proposta está alinhada à Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e se complementa ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que estabelece a meta de recuperar 12 milhões de hectares até 2030.
Diana reforça que a capacitação das comunidades é parte essencial desse processo.
“Territórios com governança robusta e comunidades resilientes têm maior capacidade de conservar sua biodiversidade, enfrentar pressões externas e lidar com o impacto das mudanças climáticas”, conclui.
Fonte: Agência Brasil/EBC







