O impacto das narrativas literárias na reflexão social é abordado de maneira profunda por Itamar Vieira Junior em seu mais recente livro, Coração Sem Medo. Esta obra finaliza a trilogia que começou com o aclamado Torto Arado e continuou com Salvar o Fogo. O novo título foca na experiência dos desterrados, retratando de forma comovente o luto de mães em comunidades periféricas, especificamente o desaparecimento de filhos, muitas vezes vítimas de violência.
Integrante da Trilogia da Terra, Coração Sem Medo revela histórias conectadas que abordam um direito fundamental que, embora essencial, permanece negado a muitos. A narrativa central gira em torno de Rita Preta, uma mulher de Salvador que, após ter um de seus filhos desaparecido, embarca em uma jornada de busca e compreensão do que a realidade carrega para tantas mulheres como ela.
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A ficção de Itamar reflete uma realidade alarmante: somente no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 43.828 casos de pessoas desaparecidas, o que significa aproximadamente 242 desaparecimentos por dia. No ano anterior, os números chegaram a 85.232. Esses dados, disponibilizados pelo Painel Estatístico do Sinesp, não capturam completamente a situação, dado que muitas ocorrências não são formalmente reportadas.
Em uma entrevista à Agência Brasil, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), Itamar destacou que o sofrimento vivido pela protagonista, Rita, abrange todas as classes sociais, sendo as mães de áreas periféricas as mais afetadas.
“É importante ressaltar que o desaparecimento tem um impacto profundo em diferentes estratos sociais, mas geralmente é mais severo para aqueles que já enfrentam vulnerabilidades relacionadas ao Estado”, ressaltou o autor.
Na obra, o desaparecimento ocorre após um desentendimento familiar, e a transformação interna de Rita revela uma busca por respostas que a faz conectar-se com suas raízes e passado. “A dor e a luta que ela enfrenta são o retrato de tantas mulheres que vivem essa angústia em nosso país”, afirma Itamar.
A literatura, segundo ele, desempenha um papel crucial de humanização. Essas questões muitas vezes são abordadas na mídia, mas de maneira superficial.
“A arte é a única capaz de captar as sutilezas da subjetividade humana, devolvendo o significado às experiências que muitas vezes são desumanizadas,” comentou Itamar.
No entanto, ele ressalta que a arte não oferece respostas diretas. Sua função é provocar questionamentos e reflexões sobre realidades que devemos encarar. “A arte instiga; é do incômodo que surgem as mudanças necessárias”, acrescentou.
A Migração do Campo para a Cidade
No novo romance, Itamar Vieira Junior move a narrativa do campo que caracteriza Torto Arado para a complexidade urbana de Salvador.
“Salvador, com sua rica diversidade cultural e contradições históricas, é fruto de muitas chegadas ao longo do tempo,” disse ele em um discurso no Flipelô, destacando a massiva migração de pessoas do interior da Bahia.
Rita Preta, a protagonista, representa essas múltiplas histórias de migração, constatando que a vida na cidade vem acompanhada de desafios próprios, que não se restringem apenas ao rural. “Muitos vêm com esperanças, mas a realidade urbana, marcada por desigualdade e conflitos, é bem diversa daquela que imaginavam.”
Itamar observa que o drama do direito à terra permanece central em sua trilogia e se reflete no relacionamento dos personagens com seus lares e contextos sociais.
“Em meu trabalho, a terra simboliza tanto o pertencimento quanto os conflitos que geram dor e separação. No último romance, o desaparecimento do filho de Rita se assemelha à luta por essas terras que muitos consideram sagradas ou essenciais para a vida.”
Essa ideia fundamental de terra, afirma o escritor, abrange não apenas um espaço físico, mas também a herança cultural e a luta contínua por dignidade e justiça.
“Um corpo, assim como uma terra, pode se tornar um território de disputa,” concluiu Itamar, enfatizando a intersecção entre a violência histórica e as experiências contemporâneas.”
Fonte: Agência Brasil/EBC








