Ao refletir sobre o legado histórico da morte de Carlos Marighella, é importante reconhecer que, há exatos 30 anos, o Estado brasileiro assumiu sua responsabilidade no caso. O jovem Carlos Augusto, ao receber a confirmação do falecimento do pai, ex-deputado e guerrilheiro Carlos Marighella, percebeu, de forma traumática, a brutalidade do evento. Essa revelação se deu após ele visualizar, aos 20 anos, uma imagem de seu pai, assassinado em 4 de novembro de 1969. O impactante relato de como essa revelação se deu marca o início de uma busca por justiça e reconhecimento que durou décadas.
No dia 11 de setembro de 1996, um marco foi estabelecido quando a família de Marighella recebeu um atestado de óbito que atribuía ao Estado a culpa pela morte do guerrilheiro, conforme os termos da Lei 9.140. Essa legislação foi responsável por criar uma Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, sendo o primeiro passo para restaurar a honra de Marighella no imaginário nacional.
Contexto Histórico
Marighella foi alvo de uma emboscada, realizada por agentes do regime militar, em São Paulo. Carlinhos, como é conhecido o filho, hoje com 78 anos, afirma que não se tratou apenas de uma ferida pessoal, mas de um golpe à dignidade de muitos que vivenciaram a repressão. A ausência de um enterro adequado fez com que o guerrilheiro fosse inicialmente sepultado como indigente, e apenas em 1979, após a promulgação da Lei de Anistia, seus restos mortais puderam ser levados de volta à sua cidade natal, Salvador.
“Vários colegas de luta do meu pai não tiveram a dignidade de um sepultamento.”
Atuação da Comissão
Com o passar dos anos, evoluções ocorreram: no ano passado, a família recebeu um novo documento com informações adicionais, conforme explica Eugênia Gonzaga, atual presidente da comissão. O jurista Miguel Reale Júnior, primeiro presidente do grupo, lembrou que a admissão da culpa pelo Estado em 1996 foi um ponto crucial na história.
Ele destacou que é vital desmistificar a narrativa das autoridades, que tentaram apresentar a morte como um confronto armado, enquanto, na verdade, foi um assassinato premeditado.
“O assassinato sob controle policial transforma-se em responsabilidade do Estado.”
Desafios no Reconhecimento
Nilmário Miranda, então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, recordou as dificuldades enfrentadas para garantir reparação a Marighella. O foco, conforme ele enfatizou, não era punir indivíduos, mas reconhecer a responsabilidade oficial. O trabalho incansável de Carlinhos e da esposa, Clara Charf, foi fundamental para que o legado de Marighella não fosse esquecido.
A importância do trabalho da comissão foi documentada no livro Dos Filhos deste Solo, de Nilmário Miranda.
Importância da Retificação
Segundo Eugênia Gonzaga, a retificação dos documentos foi necessária, pois muitas informações estavam ausentes. Marighella foi casado em clandestinidade com Clara Charf, que faleceu em 2025. A atualização permitiu que a viúva fosse oficialmente reconhecida, algo que não ocorria até então.
Além dos documentos relacionados a Marighella, outros 62 foram entregues para reparar a memória de vítimas semelhantes. A alternativa encontrada pela Comissão Nacional da Verdade foi classificar essas mortes como não naturais, resultantes de perseguição política.
A Luta pela Memória
Para Carlinhos, a reparação deve ir além da documentação legal; é uma chamada à sociedade para nunca aceitar golpes e valorizar a democracia.
“Ainda temos um longo caminho a percorrer. É imprescindível conscientizar a juventude.”
Ele anseia que a luta de Marighella pela justiça e liberdade seja um legado mais reconhecido no Brasil. Recentemente, o filho teve a satisfação de ver a Universidade Federal da Bahia conceder um diploma simbólico ao pai, algo que nunca conseguiu obter antes devido à repressão.
Legado e Inspiração
Marighella, que enfrentou o regime militar, não pôde concluir seus estudos na Escola Politécnica, onde era considerado um dos melhores alunos. Carlinhos lamenta a perda do vasto patrimônio intelectual do pai, incluindo obras e canções que foram confiscadas e nunca devolvidas.
Ele recorda momentos afetuosos ao lado do pai, que frequentemente se disfarçava para visitá-los após o golpe de 1964. Mesmo diante dos desafios, ele nunca percebeu tristeza no olhar de Marighella, algo que carrega como uma lição de vida.
“Apesar de todas as adversidades, a felicidade e a luta eram princípios que meu pai defendia.”
Fonte: Agência Brasil/EBC







