Sob a direção do presidente Javier Milei, a Argentina enfrenta uma drástica realidade econômica: o fechamento de 31,3 mil empresas, o que representa 6,1% do total. Este cenário também resultou na eliminação de 245 mil empregos formais em apenas 31 meses de governo.
Dados do Monitor Mensal de Empresas, realizado pelo centro de pesquisa Fundar, revelam que a diminuição no número de empresas lembrou os peores momentos da pandemia.
Um Quadro Preocupante
Entre os 18 setores analisados, a queda de empresas afetou 14 deles, impactando 23 das 24 províncias do país. A única exceção foi Neuquém, onde a extração de gás natural de Vaca Muerta tem sustentado as exportações argentinas.
Com relação à indústria, a Argentina registrou uma diminuição de 2,6% no período de 12 meses encerrado em julho deste ano. O setor de eletrônicos e equipamentos médicos apresentou a maior retração, com uma queda acentuada de 19,1%, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
Apenas no último mês, 709 empresas encerraram atividades, incluindo entidades com mais de 50 anos, como a Din S.A., do setor metalúrgico, e a Clan Issime, do setor têxtil. A Clan Issime, por exemplo, chegou a empregar 129 pessoas, enquanto no fechamento restavam apenas 9 trabalhadores na fábrica.
Impactos no Mercado de Trabalho
A extinção de empresas acarretou consequências diretas no mercado de trabalho argentino. De novembro de 2023 a junho de 2024, houve uma perda de 245,6 mil empregos registrados, representando uma queda de 3,9% no total, conforme um levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa).
Embora os trabalhadores autônomos tenham aumentado em 169 mil, correspondendo a um crescimento de 8,3%, o relatório da Cepa alerta que muitos empregos formais estão sendo substituídos por atividades vulneráveis.
O resultado é um aumento da taxa de desemprego, que se elevou em 0,3 pontos percentuais no primeiro semestre de 2026, alcançando 7,9% da população economicamente ativa, segundo o Indec.
Desafios Econômicos
A relação entre a queda no emprego e a renda familiar contrasta com a diminuição da inflação, que registrou redução de uma taxa anual de 289% em abril de 2024 para 33,5% em agosto de 2026. O professor de economia Paulo Gala, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), opina que essa estabilidade pode ser vulnerável.
Gala observa que a redução dos gastos públicos, empréstimos colossais do FMI e a sobrevalorização da moeda não são soluções sustentáveis, já que a moeda forte impacta negativamente a indústria.
“A moeda sobrevalorizada ajuda a controlar a inflação, mas afeta severamente o setor industrial. Atualmente, enfrentamos a contração da indústria, um aumento no desemprego quase atingindo 8% e um crescimento econômico em baixa”, afirma.
A dívida externa da Argentina, que chega a US$ 350 bilhões, destaca a fragilidade da economia do país vizinho, que é um dos principais parceiros comerciais do Brasil na América Latina.
A Visão de Milei
A administração de Javier Milei, desde seu início, tem sido respaldada por setores financeiros e da mídia que defendem uma abordagem econômica neoliberal, com ênfase em desregulamentação, cortes orçamentários e abertura comercial.
Entretanto, até mesmo veículos que inicialmente apoiaram seu governo, como The Economist, têm expressado preocupações quanto à gestão econômica. Recentemente, a revista alertou que o país necessita de mais crescimento e menos polêmica, referindo-se ao estilo explosivo de Milei.
“Os salários reais permanecem inferiores ao nível que estavam quando ele assumiu; empregos formais continuam a desaparecer”, enfatiza a revista, acrescentando que Milei hesita em reconhecer que suas políticas de controle inflacionário afetam o crescimento.
Defesa do Governo
Em um discurso proferido no fim de agosto, Milei rebateu críticas ao desempenho econômico do país, ressaltando os avanços nas exportações, consumo privado, inflação e no Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 4,4% em 2025, após contração de 1,3% em 2024.
O presidente argumentou: “Se fosse verdade que todas as empresas estão fechando e não estão abrindo, teríamos um crescimento do desemprego, e isso não está acontecendo”.
Além disso, criticou políticos que dependem do auxílio estatal, afirmando: “Queremos ser grandes? Precisamos amadurecer, e esses negócios dependentes do governo precisam falir”.
Fonte: Agência Brasil/EBC








