No Brasil, um alarmante índice de 39% das mulheres já optaram por não aceitar uma vaga de trabalho por conta de dificuldades relacionadas ao deslocamento. Os principais obstáculos identificados incluem a falta de segurança, os custos envolvidos, a duração das viagens e a localização dos locais de trabalho. Esses dados são provenientes da pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizada pela Indique, consultoria especializada em diversidade e inclusão racial, em colaboração com o coletivo feminista Think Eva e a 99.
Além disso, 54% das mulheres afirmaram que faltaram a compromissos profissionais ou recusaram convites por causas semelhantes. Aproximadamente 21% também não conseguiram realizar capacitações, incluindo cursos superiores.
Repercussões na Vida Social
O estudo indica que essas dificuldades afetam não apenas o aspecto profissional, mas também a esfera social e de bem-estar. Oito em cada dez mulheres (80%) relataram ter perdido a oportunidade de participar de eventos, com um terço (33%) desistindo de atividades físicas e 32% de visitas a conhecidos, enquanto 69% evitaram sair à noite.
Entrevistas realizadas com 564 mulheres de várias faixas etárias, classes sociais e regiões do Brasil revelaram que a insegurança e a violência são os principais fatores que impedem a locomoção, mencionados por 32% das entrevistadas. A falta de recursos financeiros (22%) ficou em segundo lugar, seguida por problemas com o transporte público (15%) e a distância dos destinos necessários (14%).
A sensação de insegurança levou 87% das entrevistadas a evitarem certos bairros e 73% a planejarem seus horários. Para se proteger, 63% deixaram de usar determinados meios de transporte e 60% mudaram suas rotas habituais.
Uma das participantes destacou que ao ser aprovada em um curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não se sentiu realizada, pois teve que desistir devido à dificuldade de acesso ao campus, decorrente de assaltos que a fizeram abandonar o ônibus.
Assédio e Opções de Transporte
Outro aspecto preocupante abordado na pesquisa é a prevalência do assédio sexual; 89% das mulheres relataram ter sido assediadas em algum tipo de transporte, sendo os ônibus (68,8%) e as caminhadas (60,8%) os meios mais citados. Embora opções como bicicleta e moto por aplicativo sejam percebidas como menos vulneráveis, ainda assim, 6,6% e 4,1%, respectivamente, mencionaram essas alternativas.
Os carros por aplicativo surgem como a escolha de 80% das mulheres entrevistadas, mesmo que essa opção represente um gasto significativo para 67% delas, principalmente aquelas oriundas de áreas com infraestrutura deficitária.
Entre as participantes, 68% afirmaram que não possuem carro próprio, e 52% levam mais de uma hora diariamente para se deslocar. Aproximadamente 45% consideram precárias as condições de mobilidade em suas áreas em comparação ao centro urbano, e 33% avaliam o transporte público em seus bairros como ruim ou péssimo.
Além disso, o estudo confirmou que a renda impacta diretamente no tipo de transporte utilizado: 80,3% das mulheres de baixa renda dependem do ônibus, enquanto 52,1% das de alta renda utilizam este meio regularmente. Carros próprios são usados com frequência por 40,6% das mulheres de alta renda, em contraste com apenas 8,3% entre as de baixa renda.
O Papel das Mulheres como Cuidadoras
O cuidado, uma função historicamente associada às mulheres, influencia diretamente seus trajetos. O levantamento demonstrou que 54% delas realizam essa tarefa sozinhas, enquanto 38% compartilham essa responsabilidade.
Este cenário ilustra por que os trajetos de muitas mulheres frequentemente não se restringem ao trabalho ou à casa, envolvendo diversas paradas ao longo do caminho. Cerca de 43% planejam sozinhas os caminhos relacionados ao cuidado, incluindo idas a consultas médicas, escolas e compras, e 44% escolhem o meio de transporte com base nessas atividades.
Quando transportam dependentes – sejam filhos, idosos ou pessoas com deficiência – 53% das mulheres optam por carros por aplicativo.
Coleta de Dados
A fase quantitativa da pesquisa foi realizada entre 8 de junho e 9 de julho de 2026, abrangendo 564 mulheres de 18 a 60 anos, focando nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de 73 outras cidades do Brasil.
As organizações também obtiveram contribuições de especialistas em temas como planejamento urbano, mobilidade feminina e desigualdades territoriais.
Fonte: Agência Brasil/EBC







