As operações de apostas on-line, conhecidas como bets, causaram profundos impactos na vida de muitos brasileiros, resultando em endividamento severo e problemas de saúde mental. Após a proibição recente, muitos, como Kaio*, um homem de 42 anos, expressaram um grande alívio. Ele havia perdido tudo — trabalho, carro e casa — devido a suas dívidas relacionadas ao jogo.
Agora, Kaio vive isolado em um dormitório numa cidade do interior de Goiás, acomodando-se no chão para evitar conflitos com credores. Focado em reconstruir sua vida, ele reconhece que o vício nas apostas transformou sua existência em um pesadelo ao longo dos últimos seis anos.
Contraponto às apostas
Com a proibição das bets estabelecida pela Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os jogadores podem finalmente encontrar um caminho para a recuperação. A legislação revogou uma norma anterior que geria as operações de apostas, que permaneceram praticamente incontroladas por cinco anos após sua aprovação em 2018.
Embora regulamentações tenham sido introduzidas, como a exigência de avisos sobre os riscos do jogo, a divulgação enganosa e a publicidade voltada a grupos vulneráveis continuam a proliferar. Segundo a psiquiatra Katia Branco, muitas pessoas foram induzidas a acreditar que as apostas poderiam representar uma forma de incrementar sua renda.
Impactos financeiros
Estudos indicam que, no último ano, as famílias brasileiras perderam impressionantes R$ 62,5 bilhões devido às apostas, o que representa uma média mensal de R$ 4,7 bilhões. Essas perdas foram calculadas levando em consideração as transferências realizadas para as casas de apostas pelo sistema Pix.
Esses dados alarmantes foram divulgados por meio do Boletim Fiscal dos Estados e demonstram o extenso impacto econômico das bets, evidenciando sua influência negativa na Renda Nacional Disponível Grossa das famílias.
Cumprimento da legislação
A regulamentação anterior estipulava, por exemplo, que as plataformas deveriam restringir usuários que fossem reconhecidos como compulsivos. No entanto, segundo o advogado Júlio Leone, isso raramente aconteceu; ao contrário, as plataformas continuaram a bombardear os jogadores com ofertas.
Um estudo recente destacou que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio relataram já ter participado de apostas on-line, com apostas começando por volta dos 11 anos. Essa acessibilidade facilitada foi um fator crucial para a promoção do vício, particularmente entre jovens, que são mais suscetíveis a esse tipo de influência.
Consequências graves
A questão da saúde mental é cada vez mais preocupante. Profissionais alertam sobre sinais de desesperança e problemas de comportamento em apostadores de todas as idades. Katia Branco sublinha a importância de tratar a ideação suicida de forma mais aberta em ambientes terapêuticos, argumentando que o apoio adequado pode ajudar a reduzir esses riscos.
O neurocirurgião Orlando Maia destaca que muitos dependentes de apostas não reconhecem seu problema, necessitando do suporte de amigos e familiares para buscar ajuda. Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde (SUS) está expandindo seus serviços para lidar com os problemas relacionados ao vício em apostas, respondendo à crescente demanda por tratamento.
Recentemente, o Ministério da Saúde anunciou um plano para alcançar apostadores contumazes e oferecer acompanhamento, resultado da colaboração com outros ministérios e instituições federais.
Fonte: Agência Brasil/EBC
*Nomes fictícios usados a pedido dos entrevistados.








