O catamarã Pegasus I partiu do cais de Caravelas (BA) ainda sob o brilho do sol nascente, rumo ao arquipélago de Abrolhos, um dos tesouros da biodiversidade marinha brasileira.
A jornada está programada para durar cinco horas, mas frequentemente se estende, pois os passageiros estão em busca de avistamentos de jubartes — esses majestosos cetáceos que migram da Antártica para Abrolhos a cada temporada de reprodução.
Após aproximadamente duas horas, todos se posicionam nas melhores áreas de observação e aguçam a visão. O característico borrifo surge, sinalizando a presença de uma baleia e guiando o barco.
Diferente do que muitos acreditam, o borrifo não é um jato de água, mas sim vapor expirado do animal que condensa ao entrar em contato com o ar frio da superfície.
Assim que alguém avista o borrifo no horizonte, um alerta ecoa entre o grupo, e todos focam na direção, na expectativa de ver o dorso ou, quem sabe, um salto impressionante.
A embarcação continua a persegui-las, enquanto as câmeras se preparam para capturar a cauda — a assinatura de cada jubarte, que possui um padrão único reconhecido como impressão digital.
A expectativa permeia o ar. Novatos e veteranos que voltam todos os anos compartilham do mesmo encanto ao testemunhar a beleza majestosa das jubartes durante suas exibições.
Um dos registradores dessas memórias é o fotógrafo Enrico Marcovaldi, que documenta a vida marinha em Abrolhos há quase quatro décadas.
Marcovaldi afirma que, mesmo após tanto tempo, ainda sente a emoção a cada aparição das jubartes, expressando seu entusiasmo com entusiasmo: “Isso é que é bonito!”.
A expedição científica promovida pelo Instituto Baleia Jubarte tem como objetivo observar a passagem dessas criaturas, fornecendo dados populacionais e pesquisando seus hábitos e comportamentos.
Os avistamentos são meticulosamente catalogados, e amostras de pele e gordura são obtidas por meio de biópsias com uma flecha semelhante a uma lanceta, projetada para atingir a carne de uma jubarte adulta, que pode medir mais de 10 metros e pesar cerca de 30 toneladas.
Desde a colonização, as jubartes enfrentaram a caça, principalmente pela gordura, usada para produção de óleo. A proibição da caça somente foi instaurada em 1987, garantindo a inclusão da espécie na lista de animais ameaçados.
No ano seguinte, durante a criação do Parque Marinho de Abrolhos, foi descoberta uma pequena população remanescente de jubartes, levando Marcovaldi e a bióloga Márcia Engel a inaugurar o Projeto Baleia Jubarte.
“Na primeira estimativa realizada na década de 90, a população era estimada entre 1,5 mil e 2 mil baleias. Hoje, ultrapassamos 35 mil. Sinto que nossa missão está cumprida; a população se recuperou realmente”, comemora.
A formalização do instituto aconteceu em 1996, com o apoio contínuo da Petrobras, seu principal patrocinador.
“Esse apoio possibilitou a nossa atuação em todo o Brasil. Onde as baleias estão, nós também precisamos estar”, destaca Marcovaldi.
Desde 2014, as jubartes não figuram mais como espécie ameaçada. Fotos realizadas por Marcovaldi e outros pesquisadores já permitiram a identificação de mais de 10 mil baleias.
Mais recentemente, essas informações foram integradas em uma plataforma mundial que utiliza inteligência artificial para verificar a singularidade das marcas caudais.
A método atual de estimativa populacional envolve sobrevoos ao longo da costa, de São Paulo até o Rio Grande do Norte, e registrou mais de 35 mil jubartes em 2022. O novo cálculo deste ano ainda está em andamento, mas tende a ser ligeiramente inferior.
Marcovaldi acentua que esta diminuição não deve ser interpretada como um retrocesso em termos de conservação: “As temporadas são cíclicas. Em alguns anos, observamos mais baleias; em outros, menos. Algumas permanecem mais ao sul, enquanto outras se dirigem ao nordeste.”
Desafios Enfrentados
Conforme as jubartes se recuperam, os novos desafios não desaparecem. A poluição e as mudanças climáticas representam obstáculos significativos. Eduardo Camargo, diretor-executivo do instituto, enfatiza: “Nossa missão principal é equilibrar as atividades humanas com a conservação das jubartes e outros cetáceos.”
“O lixo afeta os oceanos, que estão repletos de microplásticos. As mudanças climáticas impactam a disponibilidade de alimento, influenciando o ciclo de vida dos animais. Realizamos pesquisas para entender essas correlações, pois o impacto é claro”, acrescenta Camargo.
Pesquisas em Andamento
O Instituto não apenas oferece uma vasta base de dados, mas também acolhe estudantes em mestrados e doutorados para participar das pesquisas de campo. Muitas dessas iniciativas abordam os efeitos das mudanças climáticas nas jubartes.
A bióloga e mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Laura Aguiar, analisa imagens capturadas por drones desde 2018 para determinar o comprimento, peso e saúde das jubartes.
“Com tantos dados disponíveis, consigo comparar diferentes temporadas e avaliar se as condições das baleias variaram, correlacionando com fatores ambientais”, explica.
Bruna Baleeiro, também mestranda da UFSC, utiliza registros de fotoidentificação de mais de 30 anos, buscando atualização nas estimativas populacionais e verificando a recorrência dos indivíduos que retornam ao Brasil.
“Com dados estatísticos, podemos calcular a taxa de sobrevivência, ou seja, verificar se um indivíduo visto em um ano é o mesmo que aparece no seguinte e avaliar quantos sobreviveram ao longo de um período”, conta Bruna.
Ela notou que a temperatura na superfície da Antártica pode ter impacto na saúde e abundância das jubartes, já que afeta a quantidade de krill, seu principal alimento.
Outra linha de pesquisa crescente envolve a observação do comportamento das baleias: “Isso nos ajuda a mensurar os impactos de atividades humanas como sísmicas, navegação e turismo. Para isso, é vital entender como esses comportamentos se alteram”, disse o Diretor de Pesquisas do Instituto.
Bióloga Bianca Righi, em seu doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, investigou o comportamento entre fêmeas e filhotes. Recentemente, descreveu um novo comportamento dele, registrado durante campo.
“Capturamos uma imagem de uma fêmea com as nadadeiras cruzadas, protegendo o filhote devido a machos que se aproximavam para tentar acasalar. Essa estratégia evita riscos para o pequeno, pois a mãe, então, nadava de costas com o filhote entre suas nadadeiras”, relata.
Interações Institucionais
O Instituto Baleia Jubarte também desempenha um papel fundamental oferecendo consultoria na formulação de políticas públicas para conservação marinha.
“Somos os guardiões da história das jubartes nos últimos 30 anos. Embora nem sempre somos ouvidos, ao menos somos questionados”, afirma Eduardo Camargo.
O instituto também colabora com empresas que buscam reduzir seu impacto ambiental. Gregório Maciel, gerente de Projetos Ambientais da Petrobras, menciona que a rota do Terminal Aquaviário de São Sebastião (SP) foi alterada para não interferir na migração das jubartes.
“Graças ao monitoramento das baleias, conseguimos traçar rotas mais seguras para a entrada e saída dos barcos sem perturbar as jubartes”, explica.
“Assim, entendemos como nossas operações impactam o meio ambiente e buscamos minimizar esse impacto, através de adaptações e aportes sociais para regeneração e recuperação”, completa o gerente da Petrobras.
A estatal é um dos principais financiadores do Baleia Jubarte desde sua fundação, contribuindo com cerca de R$ 30 milhões no ciclo atual, de quatro anos, dentro de um total de R$ 450 milhões destinados a diversas iniciativas ambientais.
“Estamos realizando um serviço público, e isso é algo que nos satisfaz profundamente, pois é parte de nossa missão”, conclui Eduardo Camargo.
Fonte: Agência Brasil/EBC








