A China tem se empenhado em integrar diversas culturas ao explorar a relação das sociedades com os grandes rios que serpenteiam o planeta. O Yangtzé, um dos pilares da economia chinesa, foi cenário para a 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé, onde representantes de países como os do Amazonas, Nilo, Danúbio e Mississippi se reuniram.
O Brasil, representado por acadêmicos e jornalistas, teve um papel proeminente no evento realizado nesta semana em Chongqing, uma metrópole com 32 milhões de habitantes, situada no centro industrial da China.
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Esta iniciativa, apresentada pelo presidente Xi Jinping em março de 2023, visa facilitar a promoção de “valores comuns” através da colaboração entre nações.
Com o lema “Conectando Rios e Mares, Compartilhando a Sabedoria das Civilizações”, o evento contou com a participação de cerca de 20 países, incluindo Egito, Sérvia, Austrália, Reino Unido, México, Turquia e Coreia do Sul.
Durante o evento, também foram discutidas as perspectivas para a Rota Econômica do Rio Yangtzé, que se estende por 6.300 quilômetros e é fundamental para conectar o interior da China ao porto de Xangai.
A Agência Brasil participou da cobertura do Fórum, que incluiu uma viagem de cruzeiro de 440 quilômetros pelo Yangtzé, explorando templos e fortalezas com séculos de história, como Shibaozhai e o templo de Zhang Fei.
Pesquisadores chineses compartilharam suas preocupações sobre a falta de reconhecimento do papel do Yangtzé no desenvolvimento humano nas narrativas ocidentais. Novas pesquisas arqueológicas mostram que a prática da agricultura de arroz na região remonta a quase 10 mil anos.
“Historicamente, a discussão sobre civilizações fluviais tem privilegiado a Mesopotâmia e o Nilo, criando mentalidades e estruturas de análise de origem ocidental”, comentou Li Guoqiang, professor do Instituto de História e membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).
Os especialistas presentes, incluindo egípcios, falaram sobre suas experiências na medição das águas do Nilo, relevante para antecipar secas e enchentes. O professor Alaa Hussein Mahmoud Menshawy enfatizou a importância do intercâmbio cultural.
“Fatores como poluição, mudanças climáticas e crescimento populacional ameaçam os rios e as comunidades que deles dependem. O compartilhamento de conhecimentos pode ajudar os países a proteger esses recursos essenciais”, concluiu.
Rio Yangtzé
O crescimento econômico da China nas últimas cinco décadas, que transformou o país de uma nação rural e empobrecida em um hub industrial, trouxe à tona uma série de desafios ambientais para o Yangtzé, o maior rio da Ásia.
Entre as consequências, destaca-se a extinção do golfinho Baiji, uma das únicas três espécies de golfinhos de água doce, em 2006.
O professor Li Guoqiang reconheceu, em entrevista à Agência Brasil, que o desenvolvimento acelerado da China prejudicou o equilíbrio ecológico do Yangtzé, mas ressaltou que esforços estão sendo feitos para reverter essa situação.
“Hoje, a preservação ecológica é uma prioridade em nossos projetos de desenvolvimento, seguindo o princípio das duas montanhas, que busca harmonizar economia e meio ambiente”, afirmou.
Mudanças significativas incluem a proibição da pesca profissional por uma década e iniciativas para restaurar o rio.
Civilização ecológica
Nos últimos anos, a China tem integrado à sua política a ideia da civilização ecológica, que busca equilibrar o progresso econômico com conservação ambiental. Desde 2012, esse tema se tornou uma prioridade nacional e, em 2018, foi formalmente incluído na Constituição como uma política de Estado.
A professora Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), abordou no Fórum os impactos da industrialização e urbanização na vida aquática do Yangtzé.
“O governo chinês iniciou um movimento para priorizar a conservação ambiental, uma mudança necessária para evitar a perda total dos recursos naturais”, ressaltou à Agência Brasil.
Rio Amazonas
Como parte do projeto de unir histórias de povos que vivem ao longo de grandes rios, uma equipe da mídia estatal chinesa, o Centro Internacional de Comunicação do Oeste da China (WCICO), viajou ao Brasil para produzir um documentário intitulado “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”, que explora a vida de comunidades ribeirinhas.
A produtora Vivian Yan comentou à Agência Brasil sobre a riqueza de diversidade cultural que encontrou:
“O que conheci no Amazonas foi muito além do que imaginava, revelando o profundo vínculo entre o rio e o cotidiano local.”
“É fundamental que o Brasil aprenda com a experiência da China para evitar erros ambientais na exploração econômica da Amazônia”, comentou Vera Maria.
Ela alertou que não se deve aplicar modelos de exploração de outras regiões brasileiras na Amazônia, mas sim focar na valorização das economias que preservam a floresta.
“A extração sustentável de produtos como açaí e castanha-do-Brasil pode gerar tantos recursos quanto atividades destrutivas”, concluiu.
Vera Maria também destacou que as espécies aquáticas do Amazonas estão ameaçadas.
O professor André Pereira Reinnert Tokarski, que também participou do Fórum, enfatizou a necessidade de encontrar um equilíbrio para a Amazônia, onde existem visões polarizadas sobre a exploração econômica da região.
“É crucial buscar um meio-termo. Ignorar as necessidades econômicas das comunidades locais também representa um desafio ambiental”, ponderou.
*Repórter viajou a convite do Comitê Municipal do Partido Comunista Chinês (CPC) em Chongqing e da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).
Fonte: Agência Brasil/EBC







