Uma atualização nas diretrizes médicas sugere que gestantes cujos exames mostram anticorpos anti-TPO positivos, mas que apresentam tireoide funcionando adequadamente, não precisam se submeter a tratamento hormonal. Pesquisas recentes demonstram que a utilização preventiva desses medicamentos não diminui as chances de abortos ou partos prematuros.
Com essas evidências, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia revisaram suas orientações para diagnósticos e cuidados com disfunções tireoidianas durante a gestação.
Contexto das Novas Diretrizes
As recomendações têm como base uma diretriz da Associação Americana da Tireoide, divulgada em junho deste ano, que atualiza as orientações passadas de 2017.
No Brasil, a divulgação das novas orientações ocorreu no dia 28 de agosto, durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia no painel “Disfunção tireoidiana na gestação: o manejo que evita danos irreversíveis.”
Diretrizes de Tratamento
Conforme o novo posicionamento, gestantes com anticorpos contra a tireoide positivos não devem receber tratamento preventivo com hormônio sintético (levotiroxina) caso sua glândula esteja funcional e os níveis de T4 sejam normais.
Ainda que o uso do medicamento seja desaconselhado nesses casos, a monitoração da função tireoidiana permanecerá, pois investigações clínicas sinalizam um risco elevado de hipotireoidismo ao longo da gravidez.
Dr. Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, ressalta que a presença de anticorpos positivos indica uma predisposição à disfunção, mas não garante a ocorrência de anomalias se os níveis de T4 e TSH estiverem normais.
Em situações onde a mulher já possui hipotireoidismo antes da gestação, a recomendação continua sendo um aumento na dosagem do hormônio em cerca de 30% no momento da concepção.
Rastreamento de Sedimentos
O Brasil manterá a abordagem de rastreamento universal para todas as gestantes desde o início da gravidez, diferente da nova diretriz, que preconiza uma triagem seletiva baseada em fatores de risco.
O endocrinologista discute a controvérsia de tal abordagem, argumentando que um rastreamento seletivo pode negligenciar mulheres que apresentam disfunções tireoidianas sem os critérios de risco definidos.
“Restrições podem deixar passar algumas pacientes com problemas na tireoide, mesmo que não se enquadrem nos fatores de risco considerados na triagem.”
A estratégia brasileira se propõe a maximizar as oportunidades de diagnóstico, priorizando a personalização do tratamento onde houver necessidade.
Hipotireoidismo Subclínico
Outra atualização se relaciona ao hipotireoidismo subclínico, em que o TSH está elevado, mas o T4 permanece dentro dos padrões normais. Agora, o tratamento se concentra no primeiro trimestre da gestação, já que nesse período a dependência do feto aos hormônios maternos é maior.
Caso a detecção ocorra em trimestres posteriores, a recomendação estipula monitoramento da função tireoidiana, evitando a introdução de levotiroxina, exceto em casos de TSH acima de 10 mUI/L.
De acordo com o especialista, as evidências científicas ainda não demonstram vantagens claras em iniciar tratamentos hormonais rotineiramente em estágios avançados da gestação.
Dr. Cleo explica: “Não se deve desconsiderar o hipotireoidismo significativo, mas a decisão de tratamento deve ser cuidadosamente analisada, levando em conta o nível de TSH e T4 durante a gravidez.”
Repetição de Exames
A diretriz internacional sugere que exames de TSH sejam repetidos apenas entre uma a três semanas antes de determinar um tratamento. No entanto, no Brasil, especialistas recomendam que a coleta de sangue seja feita de imediato para evitar a perda de chances de intervenção precoce.
Quando for inviável testar todas as gestantes, a nova diretriz reafirma a prioridade em mulheres com riscos mais elevados, que incluem:
- histórico de disfunção tireoidiana;
- tratamentos prévios ou cirurgias relacionadas;
- doenças autoimunes;
- histórico familiar de doenças da tireoide;
- episódios de infertilidade;
- aborto espontâneo anterior;
- uso de medicações interferentes.
A idade materna, a obesidade e a quantidade de gestações anteriores já não são mais considerados fatores significativos de risco.
A entidade de endocrinologia expressa que estas características não isoladamente previnem uma identificação precisa das disfunções tireoidianas.
Considerações sobre Iodo
Uma recomendação adicional aborda a importância do iodo, elemento vital para a produção hormonal tireoidiana, cuja demanda aumenta durante a gestação e amamentação. Assim, sugere-se garantir uma ingestão adequada de iodo ainda na fase pré-concepcional.
No Brasil, a diretriz atualizada não estabelece a suplementação de iodo para todas as gestantes, priorizando em vez disso um tratamento personalizado, visando especialmente as que apresentam risco de ingestão inadequada.
“Para gestantes com dietas restritas ou que consomem pouco ou nenhum sal iodado, pode-se considerar uma suplementação de até 150 µg de iodo por dia.”
Fonte: Agência Brasil/EBC








