O impacto emocional de uma perda gestacional é profundo e, frequentemente, negligenciado. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alerta que a saúde mental das mulheres que enfrentam esse tipo de perda requer melhores cuidados e atenção, especialmente em setembro, mês de conscientização sobre prevenção ao suicídio.
Kalyane Ribeiro, agora com 34 anos, sabe bem como são desafiadoras essas experiências. Ao relatar sua própria vivência, ela enfatiza que a perda, mesmo quando precoce, leva a uma intensa solidão e incompreensão que pode ser difícil de compartilhar. “Quando você passa por isso, é como abrir uma porta para um lugar isolado que poucos conseguem compreender”, conta.
Consequências emocionais
Essa experiência traumática muitas vezes não é devidamente reconhecida por pessoas próximas, o que complica o processo de luto. Kalyane explica que, em vez de apoio, recebe conselhos que não ajudam: “As pessoas geralmente dizem para tentar novamente, como se fosse possível substituir o que foi perdido.”
Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, enfatiza a necessidade de acolhimento. Ele ressalta que a tristeza intensa e a ansiedade pós-perda são respostas normais e devem ser tratadas com empatia.
Estudos apontam que entre 15% e 20% das gestações não progridem, um dado que torna ainda mais essencial a assistência emocional nesta fase. Eduardo Felix Martins Santana, obstetra e professor, subscreve a ideia de que o apoio é fundamental para que as mulheres não passem por esse sofrimento sozinhas.
As mudanças hormonais também desempenham um papel significativo na saúde mental de mulheres que sofreram perdas. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri explica que a queda repentina nos hormônios, após a perda, pode causar sintomas semelhantes à tensão pré-menstrual, intensificando a dor emocional.
Quando buscar ajuda
É crucial que as mulheres que enfrentam sintomas persistentes como depressão e ansiedade busquem suporte profissional, pois a incapacidade de se conectar com a vida cotidiana após uma perda pode indicar um quadro mais grave. “É natural sentir dor, mas não deve haver paralisia na vida”, alerta Galastri.
Santana reforça a importância da aproximacão médica e a criação de redes de apoio, que são fundamentais para o tratamento do luto. O desafio maior, segundo ele, está em disseminar essa conscientização e apoio em todo o país.
A iniciativa de Kalyane de criar uma comunidade online para mulheres que compartilham experiências similares é um exemplo de como o suporte emocional pode ser construído. Em suas plataformas, ela proporciona um espaço para que essas mulheres se unam, compartilhem histórias e encontrem força nas vivências umas das outras, culminando na publicação de seu livro, *Ainda me Sinto Mãe*.
Busca por recursos
Se você ou alguém que conhece estiver lutando com pensamentos suicidas, é vital buscar ajuda imediata através de amigos, familiares ou serviços de saúde.
Entre os recursos disponíveis estão:
- Centros de Atenção Psicossocial;
- Hospitais e serviços de emergência;
- Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita).
O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, com atendimento gratuito e sigiloso, disponível 24 horas por dia.
Fonte: Agência Brasil/EBC








