Em busca de uma autonomia digital em Inteligência Artificial (IA), o Brasil se junta a 28 outras nações na criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), estabelecida em julho em Xangai, China. Esta proposta visa construir uma governança global para a IA, utilizando modelos de código aberto que democratizam o acesso a essa tecnologia, permitindo que qualquer instituição possa utilizá-la.
A iniciativa chinesa contrasta com a proposta americana, chamada Pax Silica, que busca reunir aliados da Casa Branca para regular as cadeias de suprimento de semicondutores e energia. Enquanto isso, especialistas em IA, consultados pela Agência Brasil, acreditam que a Waico representa uma oportunidade crucial para o Brasil avançar em sua soberania digital. Contudo, para isso, é essencial desenvolver uma infraestrutura robusta interna, conforme destacou Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Segundo o sociólogo, o Brasil possui um potencial inigualável, com centros de pesquisa avançados que poucas nações podem oferecer, colocando-o em uma posição privilegiada para o avanço da IA.
“O Brasil pode traçar um caminho de desenvolvimento autônomo. A aliança com a China é importante, mas devemos elaborar nossa própria estratégia”, avaliou.
Sérgio Amadeu acrescentou que, sem uma base crítica em IA e controle sobre os dados gerados no país, não há como aproveitar a colaboração com a China para extrair conhecimento. Ele exemplificou que, caso recebesse R$ 10 milhões em financiamento para projetos de IA, metade seria destinado apenas a contratos com fornecedores de nuvem como Amazon ou Huawei.
“Falta uma infraestrutura nacional que permita que pesquisadores e instituições utilizem recursos locais em vez de depender de grandes empresas estrangeiras”, comentou.
O especialista em governança de IA, Ettore Arpini, fundador da Plures, declarou que o Brasil pode ser um ator importante na geopolítica da IA, transitando entre as propostas chinesas e ocidentais.
“É fundamental que o Brasil não veja a IA apenas como uma questão setorial, mas como uma alavanca de desenvolvimento e prosperidade”, concluiu.
O Brasil no cenário global da IA
O governo brasileiro defende que o país deve evitar a dependência de um único modelo, seja menor ou maior, e procura dialogar com todas as frentes que busquem conquistar a soberania digital.
Nos fóruns internacionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressalta que a IA não deve ser um privilégio de poucos, mas sim uma ferramenta acessível a todos os países. Ele ressalta a necessidade de uma governança intergovernamental em que todos os estados sejam incluídos nas discussões.
Os especialistas alertam que a IA não é apenas uma nova tecnologia, mas um componente essencial que influenciará todas as esferas da economia, técnica similar ao papel da eletricidade ou da internet.
Durante o lançamento da Waico, o secretário-geral da ONU, António Guterres, observou que a IA pode representar uma grande oportunidade no século XXI, mas também apresenta riscos significativos.
“A tecnologia que definirá o futuro da humanidade deve ser moldada por todos. Não pode ser controlada apenas por alguns países ou corporações. É fundamental que todas as nações tenham voz e assento à mesa”, afirmou.
Pax Silica
A proposta de uma IA governável por todas as nações contrasta com a visão americana, que vê a tecnologia como um pilar do poder global. Por meio da Pax Silica, os EUA pretendem controlar as cadeias de suprimento necessárias para o funcionamento da IA.
A opinião do governo Trump sobre o assunto foi expressa por Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA, que criticou o conceito de “soberania digital” apoiado pela ONU e por países, incluindo o Brasil.
Helberg advertiu que o ideal de que cada nação tenha sua própria IA pode parecer atraente, mas é contracorrente.
“Esse caminho pode levar à estagnação da inovação, enquanto as empresas americanas seguem à frente na criação do futuro”, escreveu.
“As nações que adotarem essa abordagem não conseguirão a ‘soberania digital’, mas sim uma mediocridade coletiva”, acrescentou o subsecretário.
Fonte: Agência Brasil/EBC







