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Cinemas e Narrativas Negras: Avanços e Desafios Persistentes

Editor by Editor
20 set 2026
in Brasil
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A desigualdade no cinema brasileiro é visível, mesmo com o crescimento de produções envolvendo artistas negros. Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, foi selecionado para ser a representação do Brasil na próxima disputa pelo Oscar. Além deste, outros dois filmes com enredos focados na cultura negra, ambos dirigidos por realizadores negros, também figuraram entre as seis produções pré-selecionadas.

Esses longas são Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, e Nosso Segredo, dirigido por Grace Passô.

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  • Filme Feito Pipa é escolhido para representar Brasil no Oscar 2027.
  • Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa nesta sexta-feira.

“Essas narrativas emocionam e desafiam o status quo, ganhando espaço nos maiores palcos do cinema internacional”, afirma Tatiana Carvalho, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan).

Apesar do reconhecimento, Carvalho enfatiza que a presença de artistas não brancos nas produções cinematográficas ainda é insatisfatória para um país com maioria negra. A pesquisadora destaca que é crucial implementar medidas que promovam justiça no suporte a esses realizadores.

A Carta aos Candidatos

Esta semana, a Apan, que mantém uma postura apartidária, divulgou uma carta direcionada ao setor e aos candidatos nas eleições deste ano, demandando maior inclusão e permanência de narrativas negras no mercado.

A carta ressalta a disparidade no acesso ao trabalho no setor, além da dificuldade enfrentada por pessoas negras em obter recursos públicos. Atualmente, a televisão aberta conta com 65% de profissionais brancos e apenas 32,6% de pretos e pardos empregados.

No setor cinematográfico, a representação é similar, com 69,6% de diretores brancos e 29,3% de negros, destacando ainda que as mulheres enfrentam dificuldades salariais. Um dos dados alarmantes indica que 94% dos filmes que receberam verba federal foram dirigidos por brancos.

A Questão Salarial

A Apan também aponta que a maioria dos profissionais negros ocupa funções técnicas, frequentemente recebendo salários inferiores e enfrentando a informalidade nas contratações. Assim, a associação prega a criação de mecanismos que reduzam as desigualdades raciais e de gênero nas equipes de produção.

“A carta sugere melhorias nas políticas públicas existentes, enfatizando que o cinema negro é parte integrante da identidade cinematográfica brasileira. Defendemos políticas afirmativas que façam essa relação menos excludente”, argumenta.

Carvalho acredita que os avanços, como a implementação da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, têm contribuído para a arte nacional. Um levantamento recente evidenciou que 58% dos festivais voltados para obras de diretores negros foram impactados por esses incentivos no último ano.

A carta também defende a realização de festivais específicos com foco em obras audiovisuais realizadas por negros, destacando que 83% dessas produções surgiram após 2010.

Carvalho observa que a estrutura cultural no Brasil progrediu, especialmente com a reativação do Conselho Superior de Cinema e do Comitê Gestor do Fundo Setorial Audiovisual, o que facilitou a exposição de filmes brasileiros em plataformas internacionais.

Outra ação relevante é a criação do Tela Brasil, uma plataforma para a disponibilização de filmes brasileiros.

Ela comenta que o Brasil carece de uma legislação eficaz para proteger o cinema nacional, semelhante à do Estados Unidos. “Quando sugerimos uma cota de 20% de lançamentos no cinema, muitos originais gritam que isso fere a liberdade do cinema internacional”.

Para Carvalho, as leis atuais são “insuficientes” para garantir a proteção do audiovisual brasileiro. Ela afirma que o Senado e a Câmara precisam estabelecer legislações mais robustas. “Com cerca de 200 filmes produzidos anualmente, a população ainda tem acesso limitado a essa diversidade”.

A Direção e a Desigualdade

É preocupante que, entre os filmes com orçamentos acima de R$ 5 milhões, mais de 90% são dirigidos por brancos, revelou a presidente da associação. “Isso reflete o que a maior parte da população brasileira está consumindo no cinema”.

A carta da Apan propõe a ampliação de ações afirmativas dentro do setor. Desenvolver a ideia de empresas comprometidas com a reparação histórica, que teriam um quadro societário majoritariamente composto por profissionais negros, é um dos objetivos dessa proposta.

Atualmente, a produção deve seguir uma cota mínima de 25% de verbas para ações afirmativas (15% para negros, 5% para indígenas e 5% para deficientes).

“Temos recebido reclamações sobre a má aplicação da Lei Paulo Gustavo”, revela Tatiana Carvalho.

Ela menciona casos de fraudes, onde pessoas negras assinavam autorizações e eram excluídas do projeto assim que os recursos eram disponibilizados. Também há denúncias de indivíduos que se declaravam negros indevidamente.

Por isso, a entidade defende a criação de comitês de heteroidentificação, como já ocorre nas políticas de cotas nas universidades. Ao mesmo tempo, Carvalho enfatiza a importância de legislações que incentivem a inclusão de produções negras no currículo escolar.

“Isso é essencial. Isso se alinha a uma legislação que exige o ensino sobre cultura africana e indígena nas escolas”, conclui.

Exibir filmes nas salas de aula pode ser uma estratégia valiosa para as atividades extracurriculares e promover a conexão das escolas com as comunidades nos finais de semana. Segundo Carvalho, formar uma nova geração que entenda e valorize as produções audiovisuais do próprio país é um prêmio inestimável.

Fonte: Agência Brasil/EBC

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