A tragédia causada pela Operação Contenção, que resultou em 122 mortes nos Complexos da Penha e do Alemão, continua a ser lembrada em atos de protesto. Nesta quarta-feira (28), em homenagem às vítimas, a confeiteira Tauã Brito enfatizou que a desigualdade judicial na cidade é inaceitável: “Não existe uma lei para quem reside em um condomínio de classe alta e outra para aqueles que vivem em favelas”.
Tauã, mãe de Wellington Brito, um jovem de apenas 20 anos, destacou que tentou sem sucesso negociar a rendição de seu filho com a polícia. Quando retornou à área da tragedia pela manhã, encontrou o corpo dele em meio a insetos, uma cena devastadora que simboliza a violência enfrentada nas comunidades carentes.
Uma Voz Coletiva por Justiça
No ato, onde também estiveram presentes membros da comunidade, Tauã fez um apelo emotivo em nome das famílias enlutadas. Ela cobrou transparência nas investigações sobre as mortes e questionou a cultura de violência que se instaurou, afirmando que o direito à vida não deve ser condicionado ao local onde se vive.
“Justiça não pode ser um privilégio de quem tem dinheiro, mora em condomínio ou ocupa cargo de poder. Atualmente, a polícia mata por causa do CEP”, enfatizou.
Ela destacou a discrepância entre a resposta da polícia em áreas de classe média e em favelas, lembrando que em maio de 2025 o Rio de Janeiro realizou a maior apreensão de armas de sua história em um condomínio de luxo, sem nenhum registro de mortes ou feridos.
As mães presentes criticaram o uso político das mortes da Operação Contensão e expressaram sua frustração pela falta de progresso nas investigações. Segundo elas, após um ano não tiveram acesso aos laudos periciais nem aos depoimentos dos envolvidos.
A Human Rights Watch divulgou uma nota denunciando desvio de conduta por parte da polícia, mencionando que um alto percentual das vitimas foi atingido de forma letal por tiros na cabeça e costas, levantando dúvidas sobre a legitimidade da operação.
Maria Edvalda Cândida de Souza, outra mãe que perdeu seu filho Cleiton Cesar, de 32 anos, clamou: “Nosso coração está despedaçado por falta de respostas. A Justiça deve ser para prender, e não para matar”.
A dona de salão Ana Paula Muniz, mãe de Diego, de 30 anos, também se manifestou, lembrando-se da alegria do filho e questionando a execução como solução para a criminalidade. “Enterrei meu filho um dia antes do aniversário dele. O que quero é entender como tudo aconteceu”, relatou.
Os jovens ativistas presentes no ato reclamaram que a situação nas comunidades permanece inalterada, pedindo que as ações do governo não se limitem às operações de segurança, mas se estendam à implementação de serviços públicos e projetos sociais eficazes.
Os filhos da periferia têm sonhos e merecem oportunidades, foi o que afirmou Natan da Silva, um dos jovens militantes presentes. A manifestação também incluiu atividades culturais, como rodas de capoeira e poesias, trazendo à tona a resistência e a cultura local.
Jéssica Soares, moradora da Penha, lamentou os efeitos devastadores da operação em sua comunidade: “As famílias estão em luto, as crianças estão traumatizadas e a imagem dos mortos, que foram retirados da mata, ainda assombra a todos nós. Não se pode viver assim, com medo constante”.
Fonte: Agência Brasil/EBC








