Os dados do primeiro semestre de 2026 revelam um panorama complicado para a segurança no campo brasileiro: enquanto o número de assassinatos caiu, os conflitos agrários apresentaram um crescimento significativo. A informação foi divulgada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta quarta-feira, 2 de agosto, e destaca a crescente mercantilização e financeirização das terras no país.
Se no primeiro semestre de 2026 contabilizaram-se seis assassinatos no campo, no mesmo período de 2025 haviam sido 27. Já o número de conflitos subiu de 798 para 841.
Estados com mais conflitos
No Maranhão, o estado com maior incidência, foram registrados 156 conflitos,seguido por Pará com 90, Bahia com 85, e tanto Rondônia quanto Amazonas, que tiveram 63 cada. Os dados servirão como base para a análise de tendências, contribuindo para o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, que será publicado em 2027.
A CPT realiza suas pesquisas com informações coletadas de diversas fontes, incluindo notícias, divulgações de instituições públicas e atuações de movimentos sociais parceiras.
“O cenário atual do campo brasileiro é distante de ser um espaço de paz. As pessoas frequentemente enfrentam a necessidade de resistência para permanecer em suas terras”, afirmou Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, em entrevista.
Aptamente, a coordenação da CPT enfatiza que, embora a quantidade de assassinatos tenha diminuído, ainda há uma continuidade nos massacres, que envolvem múltiplas vítimas. Além disso, Cecília observou que a mercantilização e financeirização da terra intensificaram com a atuação de fundos de pensão e o interesse em terras raras, que frequentemente estão situadas em comunidades tradicionais.
“A corrida por terras no Brasil está cada vez mais intensificada, buscando não só a área, mas também os recursos que nela existem”, denunciou Cecilia.
Natureza dos Conflitos
A grande maioria dos conflitos registrados em 2026 foi por questões de terra, com 711 ocorrências. Isso incluiu violências associadas a ocupações e alocações de terras. Enquanto a violência aumentou de 584 para 663, as resistências contra abusos tiveram uma leve queda, passando de 66 para 48 casos.
O Maranhão também liderou esse tipo de conflito com 153 casos, seguido pela Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54). O Amazonas apresentou um crescimento alarmante de 140%, subindo para 52 ocorrências comparado ao ano anterior.
A contaminação por agrotóxicos se destacou como a forma mais comum de violência, passando de 98 para 169 casos, seguida por invasões territoriais e desmatamento ilegal. A CPT atribui este aumento à expansão do agronegócio, com o Maranhão sendo particularmente afetado.
Cecília Gomes alertou sobre a periculosidade da utilização de agrotóxicos como arma, que causa efeitos persistentes e prejudiciais à saúde.
Conflitos Hídricos
Os conflitos relacionados à água também intensificaram-se, passando de 47 para 100 registros em 2026. O Pará teve o maior número de ocorrências (16), seguido por Minas Gerais e Amazonas, ambos com dez casos.
Esses conflitos no Pará estão ligados às lutas de povos indígenas contra a privatização de rios e a atuação de mineradoras, destacando também a resistência de ribeirinhos. A CPT recorda que a luta indígena resultou na revogação do Decreto nº 12.600/2025, que tentava privatizar importantes hidrovias.
Trabalho Escravo
O registro de trabalho escravo rural também apresentou uma redução, com 30 casos reportados em 2026, em comparação a 101 do ano anterior. Do total de trabalhadores afetados, a diminuição foi de 842 para 355. Notavelmente, São Paulo destacou-se com 148 trabalhadores resgatados.
Violência no Campo
Dentro dos seis assassinatos relatados até junho, um massacre que vitimou três famílias foi registrado em Lábrea (AM). Incluem-se também dois indígenas e um trabalhador sem-terra, com idade entre 14 e 45 anos.
Os dados da CPT mostraram um aumento no número de vítimas da violência, de 308 para 497. Neste contexto, a contaminação por minérios foi o tipo de violência mais comum, com registros de 195 casos.
Além disso, a contaminação por agrotóxicos passou de 10 para 132 ocorrências, o que destaca a crescente gravidade da situação.
Protestos e Mobilizações
Embora não conte como conflitos, as manifestações expressam a luta das comunidades em busca de justiça e direitos, aumentando de 253 para 284 eventos somente no primeiro semestre de 2026. As reivindicações focam na demarcação de terras, combate aos agrotóxicos e à privatização das águas.
Cecília Gomes ressaltou que a CPT não se limita a denunciar, mas busca também atuar junto às comunidades, promovendo resistência e enfrentamento às formas de mercantilização da terra.
Fonte: Agência Brasil/EBC








