Ainda na noite de hoje, a partir das 20h, o CineSesc em São Paulo apresentará o documentário Arquivo Vivo, uma colaboração entre Vincent Carelli e Ana Carvalho na direção. Este filme integra a programação do festival Amor ao Cinema, resgatando a trajetória do projeto Vídeo nas Aldeias, que destaca mais de 70 produções cinematográficas sobre as comunidades indígenas no Brasil.
Carelli, que possui origens franco-brasileiras, teve seu primeiro contato com o indigenismo na infância, influenciado por um missionário dominicano associado ao seu colégio em São Paulo. Este filósofo teve experiências nas comunidades Mẽbengôkre Xikrin, conhecidas também como Kayapó Xikrin, localizadas no Pará.
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Inspirado pelas apresentações do missionário, Carelli expressou o desejo de acompanhá-lo em suas viagens aos 16 anos, sendo aceito na primeira viagem que ele fez de avião. A experiência de voar, aterrissar na floresta e ingressar na aldeia teve um impacto indelével em sua vida.
Ele recorda com intensidade o momento em que se sentiu parte de outra era da humanidade, sendo ecoado por emoções profundas entre os indígenas, especialmente ao observar o reencontro de um jovem indígena, que havia estado em tratamento em Marabá, com sua família.
“Aquele momento foi transformador para mim. Depois de voltar por dois anos consecutivos e após uma breve experiência na USP, decidi que desejava realmente residir lá”, afirmou Carelli.
Após conseguir uma formação como indigenista em Brasília, Carelli foi acolhido pelos xikrin e convidado a permanecer na aldeia. No entanto, durante o regime militar, seu envolvimento com o movimento indígena foi dificultado, uma vez que as ONGs e a Funai enfrentavam oposição significativa na época.
No final dos anos 70, Carelli se uniu à Funai e cofundou o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) junto a antropólogos. Durante esse período, colaborou com Andrea Tonacci no projeto Inter Povos, que buscava a integração do vídeo como uma ponte entre diferentes culturas indígenas.
A visão de Carelli sempre foi a de que os próprios indígenas deveriam ter a oportunidade de filmar, e não apenas serem filmados, uma prática que iniciou oficialmente com o Vídeo nas Aldeias em 1986, em parceria com sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão.
Mesmo durante a pandemia de COVID-19, o projeto se manteve ativo, tornando-se essencial para registrar os desafios enfrentados por muitas comunidades indígenas, especialmente durante a negligência do governo de Jair Bolsonaro, conforme Carelli relatou.
“A apropriação de imagens possui diversas dimensões, incluindo a conexão que se tem consigo mesmo e a memória de vidas em transformações intensas”, destacou Carelli, refletindo sobre as perdas nas comunidades indígenas.
Além de suas funções como realizador e educador, Carelli atuou como jornalista e fotógrafo freelancer em revistas como IstoÉ e Repórter Três, e foi também editor fotográfico no projeto de Povos Indígenas do Centro Ecumênico de Documentação e Informação.
Um dos desafios que Carelli levantou é em relação à falta de autonomia das comunidades indígenas nas instituições estatais. “Há uma utopia envolvendo o comando, por indígenas, de instituições estatais e a relação com museus. Eles devem ter acesso às suas imagens e memórias”, concluiu.
Serviço
Festival Amor ao Cinema | CineSesc
Documentário: Arquivo Vivo
Direção: Vincent Carelli e Ana Carvalho
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 2h17min (137’)
Classificação Indicativa: Livre
Fonte: Agência Brasil/EBC







