O legado de João Guimarães Rosa vai além da literatura brasileira; sua visão crítica sobre os riscos ao Cerrado mineiro ainda ressoa. Durante uma jornada de 240 quilômetros em 1952, o autor, que já era consagrado, registrou em cadernetas tudo o que encontrava ao longo do caminho entre Três Marias e Araçaí, destacando as ameaças de destruição causadas pelas indústrias siderúrgicas.
Suas observações foram fundamentais para moldar obras icônicas como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, ambas lançadas em 1956, que agora completam 70 anos. Ele já percebeu a devastação que o plantio de eucaliptos e as atividades industriais provocavam na paisagem local. No Dia Nacional do Cerrado, a relevância desse bioma é relembrada através da obra de Rosa.
Conexões Literárias
As anotações de Rosa não apenas inspiraram suas narrativas, mas também revelam um verdadeiro inventário da natureza nos anos 50. “Essa viagem [da boiada] é um material de riqueza incomensurável, interligando cultura e meio ambiente”, conforme enfatiza a professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais.
A docente lançou recentemente a segunda edição de “Ser-tão natureza”, onde analisa a presença ecológica nas obras de Rosa.
“A interação entre a tradição cultural e a natureza é parte essencial do que ele nos transmite”.
O Cerrado como Personagem
Meyer ressalta que Guimarães Rosa não restringe o Cerrado ao papel de um mero cenário, mas o apresenta como um verdadeiro personagem da narrativa, o que sublinha a conexão intrínseca entre o ser humano e a natureza. “O autor nos ensina que a natureza é parte fundamental de nossas existências”, argumenta Meyer.
As impressões colhidas durante a viagem de 1952 são claramente refletidas em Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, onde se pode localizar descrições sobre o Rio São Francisco, a fauna e a flora locais e o convívio dos habitantes.
Elementos Aquáticos
Meyer destaca a habilidade de recuperação de detalhes do autor, incluindo a essência aquática do Cerrado, como as raízes que necessitam de grande absorção hídrica. “O Grande Sertão: Veredas pode ser considerado um romance aquático”, afirma.
Os protagonistas, Riobaldo e Diadorim, enfrentam as flutuações da natureza, refletindo as nuances das estações do Cerrado – um contraste entre períodos de chuvas e secas.
“A natureza é um ator essencial na narrativa, possuindo um papel sinérgico com as demais figuras da história”.
A Natureza como Defensora
Para a investigadora, Grande Sertão: Veredas transcende a literatura, posicionando-se como um manifesto em defesa da natureza.
Embora o autor não faça declarações explícitas sobre a preservação ambiental, diálogos como o de Diadorim, que encoraja Riobaldo a apreciar a beleza do bioma, refletem essa mensagem.
Um desses momentos se dá quando Diadorim apresenta a Riobaldo um passarinho conhecido como manuelzinho-da-crôa, levando-o a observar a beleza da vida ao seu redor.
“Esse romance é recheado de descrições da fauna, flora e expressões da natureza, desde o canto dos pássaros até as nuances do amanhecer e a cor das árvores”, conclui Meyer, argumentando que Rosa instiga o leitor a redescobrir a natureza como um ser vivo, e não como um simples recurso comercial.
As narrativas do autor capturam um mundo em constante transformação, sendo a interação entre humanos e a natureza um tema central.
“Suas obras são essenciais para desenvolver a educação ambiental, constituindo uma verdadeira enciclopédia sobre o Cerrado”.
Fonte: Agência Brasil/EBC








