A valorização de ingredientes locais pode impulsionar a economia comunitária de forma significativa. Esse é o caso das mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM), que estão revolucionando suas vidas através da tradição e inovação culinária na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. O destaque dessa transformação é um peixe antes considerado pouco atrativo, a ubarana.
Na Cozinha das Caranguejeiras, situada na sede da ACAMM, diversos pratos como estrogonofe, almôndegas e croquetes são preparados com ubarana. O sucesso dessas receitas ilustra o potencial da culinária local como catalisadora de mudanças sociais e econômicas.
Prosperidade Através da Culinária
A técnica de preparo utilizada pelas mulheres, baseada em saberes passados de geração para geração, agrega valor à ubarana ao torná-la um prato atrativo durante almoços especiais que atraem visitantes e turistas. Além disso, as vendas incluem encomendas da comunidade e de empresas.
“Recebemos diversos turistas e estudantes que vêm até aqui para aprender sobre o nosso trabalho. Isso mantém as mulheres caranguejeiras em atividade”, compartilha Márcia Regina, que tem uma vasta experiência de 40 anos na pesca e agora atua na cozinha.
Graças ao apoio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a Cozinha conseguiu um espaço físico provisório em 2021 e, posteriormente, um local maior em 2024, ampliando suas operações e impacto.
Aos 62 anos, Márcia se vê como parte essencial de uma causa maior, ajudando a reabilitar mulheres que enfrentam desafios emocionais por meio da partilha de experiências e serviços na cozinha.
“Temos ajudado 15 famílias, e as conversas e atividades na cozinha trazem renovação para muitas mulheres. A união faz a força aqui.”
Raízes na Comunidade
As caranguejeiras têm um legado na região do Rio Suruí, onde tradicionalmente pescavam caranguejos e, posteriormente, passaram a incorporar a ubarana nas suas receitas. Desde a fundação da associação, a produção aumentou, não apenas para consumo, mas também para a venda.
Conforme explica a bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, a ubarana habita ambientes costeiros e estuarinos, sendo comum na Baía de Guanabara. No entanto, suas espinhas finas dificultam o seu consumo.
“A ubarana não é valorizada, pois muitos preferem peixes com menos espinhas. Por isso, seu valor comercial é baixo”, observa Verônica.
A bióloga elogia o empenho das mulheres em reinterpretar o uso da ubarana, criando métodos de preparo que mascaram as espinhas e promovem a carne, ressaltando a importância do conhecimento local em redefinir a percepção de um determinado alimento.
Rafael Santos, presidente da ACAMM, destaca que a ubarana tinha uma função de segurança alimentar, mas agora é um produto que agrega valor na associação, originando receitas de sucesso que refletem a criatividade e o trabalho em equipe.
“A valorização da ubarana surgiu de um esforço coletivo. As mulheres foram compartilhando suas experiências e cada uma contribuiu com um pouco do seu saber”, afirma Santos.
Geração de Renda e Sustentabilidade
Atualmente, 15 mulheres trabalham na Cozinha e recebem um percentual das vendas. Além disso, 24 famílias, incluindo pescadores, utilizam o espaço para realizar eventos, contribuindo para a economia local.
A renda dos pescadores é complementada por ações de conscientização destinadas à conservação do manguezal. Estão envolvidas em limpezas e replantios, fundamentais para a sustentabilidade da região.
“A nossa iniciativa de limpeza e replantio é crucial para garantir que o estuário mantenha a qualidade necessária para a sobrevivência dos peixes”, sublinha Rafael.
Desde janeiro, pescadores e catadores de caranguejos arrecadaram 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí com a Operação LimpaOca.
Turismo Sustentável
As Caranguejeiras também apostam no potencial do Turismo de Base Comunitária na Baía de Guanabara, promovendo a observação de fauna e flora, além de atividades educativas relacionadas ao meio ambiente.
Rafael enfatiza que a Cozinha não é apenas um espaço de venda, mas um centro integrador de conhecimento e conscientização ambiental que atrai aqueles com interesse em aprender.
“O propósito é educar enquanto proporcionamos uma experiência gastronômica. Isso é essencial para a operação”, conclui.
Colaboração e Suporte
O apoio à Cozinha das Caranguejeiras vem do Projeto Andadas Ecológicas, uma parceria entre a ONG Guardiões do Mar e a Petrobras, focando em educação ambiental, limpeza de manguezais e valorização da comunidade.
Fonte: Agência Brasil/EBC







