A crescente ocorrência de secas em áreas antes consideradas estáveis é um alerta global. Com a frequência e a duração dos episódios secos aumentando em quase 30% desde o ano 2000, este fenômeno tem se tornado um sério problema em várias partes do planeta, ampliando o debate sobre suas consequências.
A questão do aumento das secas será um dos focos principais na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que terá lugar em Ulaanbaatar, na Mongólia, de 17 a 28 de agosto. Yasmine Fouad, secretária executiva da UNCCD, destaca a importância de implementar soluções eficazes e imediatas nos territórios afetados.
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“A percepção de que a seca é um problema global é clara, mas é essencial agir rapidamente para minimizar seus impactos nas comunidades e nas economias”, reforça Fouad em entrevista à Agência Brasil.
Projeções indicam que, até 2050, cerca de 75% da população mundial pode ser afetada pela escassez de água, com uma previsão de que a demanda global ultrapasse a oferta em até 40% até 2030.
No cenário brasileiro, todas as cinco regiões enfrentam o desafio da seca, que em julho de 2026, levou 157 municípios a serem classificados como em “seca severa”, resultando em perdas significativas na agricultura devido à queda da umidade do solo.
Monitorado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o fenômeno tem se intensificado, conforme explica José Antonio Marengo, coordenador do Cemaden.
“Observamos uma tendência de aumento da aridez, com chuvas em declínio e temperaturas em alta. O desequilíbrio entre precipitação e evaporação pode intensificar a situação da seca”, analisa Marengo.
Um Desafio Global
Em uma escala global, o Observatório Global da Seca revelou que a Europa também vive um período de secas severas, experimentando temperaturas acima da média que agravam a crise. As regiões mais afetadas incluem:
- Europa: Reino Unido, Itália, Alemanha, França, Hungria e Romênia;
- África: Sudão, Etiópia e Madagascar;
- Oriente Médio: Irã e Omã;
- Ásia: Cazaquistão, China e Filipinas.
Diversos tipos de seca têm sido observados: a meteorológica, que surge com precipitações abaixo do normal, e a agrícola, que reduz a umidade para as plantas, afetando também a produção. A seca hidrológica, por sua vez, impacta os rios e aquíferos, afetando o abastecimento de água e a geração de energia.
Desigualdade nos Impactos
O diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, Alexandre Pires, enfatiza que é essencial encarar a seca como um problema interconectado.
“Dados do Cemaden mostram que, nos últimos 30 anos, todas as regiões do Brasil enfrentaram secas severas. Embora algumas áreas, como o Nordeste e o Norte de Minas, tenham sido mais afetadas, todos sofreram com esta realidade”, afirma.
Populações vulneráveis, como indígenas e ribeirinhos, são as mais impactadas. A Amazônia, sendo a maior floresta tropical do mundo, está vivenciando secas sem precedentes, com registros alarmantes de rios em níveis críticos, gerando isolamento e dificuldades de abastecimento.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) recente anunciou um boletim que alerta para os perigos das secas e queimadas nos territórios tradicionais.
Segundo o coordenador da Coiab, Toya Manchineri, as secas severas comprometem modos de vida essenciais, evidenciando um colapso ambiental em andamento.
“A crise climática impacta o cotidiano; se os rios secam, os peixes desaparecem, e as florestas antes verdes começam a queimar”, finaliza Manchineri.
Os recentes dados do Cemaden revelam um aumento drástico no número de territórios indígenas afetados pela seca severa, subindo de três para 17 em um mês. Isso se estendeu também a assentamentos rurais, refletindo a gravidade da crise em estados como Pará, Tocantins e Mato Grosso.
Secas Relâmpago
As secas também têm apresentado novas características, com a eleição de episódios curtos chamados de secas-relâmpago, que surgem rapidamente durante os meses mais quentes e podem durar apenas dias ou semanas, mas amplificam a aridez devido ao aumento da temperatura.
Impacto do El Niño
As expectativas quanto à seca se intensificaram em virtude do El Niño, que traz aquecimento das águas do Oceano Pacífico, alterando padrões de chuvas globais. A Organização Meteorológica Mundial prevê que este fenômeno estará mais forte entre agosto e outubro de 2026, com consequências diretas para a umidade do solo e vazão dos rios no Brasil.
Em conjunto, o Programa Mundial de Alimentos estima um aumento significativo na insegurança alimentar, com a possibilidade de que a população afetada pela fome aguda salte de 225 milhões para 275 milhões, principalmente na América Latina e na África do Sul.
Discussão na COP17
Na COP17, a abordagem não deve se limitar a reagir a emergências, mas deve incluir investimentos em monitoramento, alertas antecipados, restaurar áreas degradadas, gestão eficiente da água e capacitação para adaptação das comunidades.
A Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), da qual o Brasil se incorporou em 2024, surge como uma plataforma para promover essas ações, fortalecendo a colaboração internacional e incentivando recursos para enfrentar o desafio das secas.
Acompanhamento da COP17
A Agência Brasil estará presente na COP17, reportando diretamente da Mongólia sobre os debates e as implicações dos temas discutidos para o Brasil e o mundo.
Fonte: Agência Brasil/EBC








