O impacto da colaboração entre grandes empresas e o regime militar brasileiro gera discussões até os dias de hoje. Recentemente, um novo livro intitulado Repressão Sociedade Anônima, lançado em São Paulo, traz à tona como bancos e montadoras contribuíram para a sustentação da ditadura.
Em 2015, após a coleta de depoimentos pela Comissão Nacional da Verdade, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) decidiu investigar a relação de empresas com a repressão durante a ditadura, incluindo a montadora Volkswagen. Seis anos depois, um relatório do ministério indicou que a Volkswagen “auxiliou intensamente o aparato repressivo”, com pleno conhecimento do seu corpo diretivo.
Uma complexa colaboração
A pesquisa realizada pelos autores do livro, Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, durou três anos e envolveu entrevistas e análises documentais. O estudo destaco que muitos trabalhadores do Grande ABC se tornaram alvos de vigilância, perseguição e até tortura como resultado dessa relação entre as empresas e os órgãos do governo repressivo.
“A Volkswagen do Brasil mostrou lealdade ao governo militar, alinhando-se aos objetivos econômicos e políticos da época.”
A obra revela que a cooperação das montadoras não se limitava apenas ao suporte financeiro, mas também inclui ações como a incorporação de militares e informantes nas fábricas. Basicamente, as empresas contribuíam com equipamentos e recursos que eram utilizados pela repressão.
Consequências e repercussões
Além de monitorar e coagir funcionários, as montadoras, segundo o livro, contribuíram para um ambiente de trabalho precário, onde acidentes eram frequentes e negligenciados. O estudo menciona que, em 1975, o Brasil registrou mais de cinco mil acidentes de trabalho em um único dia.
Condições das mulheres trabalhadoras
A situação das mulheres durante a ditadura também foi alarmante. Assediadas e tratadas de forma desumana, essas trabalhadoras enfrentavam restrições severas, desde o controle do uso do banheiro até a disponibilização de itens básicos como papel higiênico, que muitas vezes eram retidos pelos supervisores.
O DOPS no Grande ABC
Os pesquisadores descobriram a existência de um braço do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Bernardo do Campo, um núcleo central da metalurgia brasileira. Essa filial atuava na vigilância e controle dos trabalhadores e ativistas, representando uma extensão do poder repressivo do governo.
Montadoras se manifestam
A Agência Brasil buscou respostas das montadoras mencionadas no livro. A Volkswagen, por exemplo, afirmou ter assinado um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público e se posicionou como a primeira empresa estrangeira a reavaliar seu papel durante o regime militar. A Scania repudiou violações aos direitos humanos, enquanto a Mercedes-Benz negou ter encontrado evidências de apoio à ditadura. A GM e a Ford também se pronunciaram, negando envolvimento com ações repressivas.
Fonte: Agência Brasil/EBC







