“Ao sentir o calor do sol matinal, sinto uma urgência de fotografar. O brilho que entra nas frestas aqui em casa me inspira.” Essas palavras vêm do fotógrafo Luciano Ambrósio, de 57 anos, residente em Ceilândia (DF), que captura a essência da vida em seu redor.
Depois de perder a visão aos 24 anos, Luciano decidiu retratar seu cotidiano de maneira distinta, transformando imagens e palavras em sua forma de expressão.
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A luz do dia simboliza a importância dos direitos de cidadania, especialmente em datas como hoje, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Luciano usa sua arte para expor tanto a adversidade como as belezas sutis do mundo.
Com a expectativa de lançar seu primeiro livro, “Meu olhar”, em novembro, Luciano acolhe um sonho. A obra, que terá 120 páginas, combina suas fotos com 100 poesias.
Ativo na fotografia há uma década, Luciano utiliza um software de voz para auxiliar nas imagens que captura.
Ele navega pelo ambiente tateando o solo e percebendo a sonoridade ao seu redor. Com a ajuda de um celular, a tecnologia o informa sobre o que está diante da lente, permitindo que ele escolha o melhor momento para disparar a câmera, equipamento adquirido com suas economias.
Inclusão
Originário de Lajinha (MG), Luciano mudou-se para Brasília em 2002 para estudar biblioteconomia. Enquanto trabalhava no Senado como assessor, participou de uma oficina de fotografia adaptada que o inspirou profundamente.
Ele passa a notar detalhes que outros ignoram: folhas secas, as pedras no chão, a luz dançando na chuva. A câmera se tornou uma extensão de seus sentimentos.
“Coloco a câmera no chão para capturar a grama. A luz entre os degraus me fascina. Ou então quero fotografar pessoas dançando, aliás, costumo pedir que usem guizos para eu poder ouvi-los bem.”
“A maior parte da minha vida eu vivi como cego (desde os 24 anos) e, mesmo assim, compreendo a beleza. Tudo isso ainda vive em minha memória.” Ele se recorda de seus tempos de visão.
A cerimonialista Edna Teodoro, sua esposa, de 54 anos, declara que Luciano a surpreende continuamente com sua criatividade. “Conviver com ele é um aprendizado diário. Ele irradia energia.”
Edna se entristece ao presenciar atos de capacitismo, como quando uma atendente no shopping se dirigiu a ela em vez de a Luciano. “Expliquei que poderia falar diretamente com ele.”
Ela ressalta como Luciano encontra poesia nas pequenas coisas, já pensando em seu segundo livro. “Meu desejo é viver da minha arte”.
Moda
Outra artista que destaca a luta pela inclusão é a estilista Juliana Santos, de 40 anos, que vive em São Paulo. Ela atravessa um momento difícil, vítima de agressões online e buscando a Justiça por reparação.
“Procuro paz, e isso depende de uma resposta das autoridades sobre o que aconteceu”, afirma.
Os ataques a Juliana focam em sua deficiência, resultando na perda de contratos e cancelamentos. Ao longo de 12 anos, ela produziu mais de 2.300 vestidos.
No ano de 2024, quando as perseguições começaram, fabricou 678 vestidos, mas em 2025 a produção caiu drasticamente para apenas 68. Para o ano atual, restam apenas 28 contratos em decorrência dos ataques.
“Minha arte é o meu sustento e o dos meus filhos. Quero responsabilização pelos danos que enfrentei”, afirma.
Juliana informa que há um inquérito em andamento, relacionado a calúnia e perseguição, que ainda não teve desfecho.
Protesto
Nesta segunda-feira, Juliana exibirá um vestido como protesto contra o capacitismo, incluindo 200 comentários ofensivos que recebeu nos últimos dois anos.
Ela carrega uma história de superação, tendo sofrido queimaduras na infância após um incêndio acidental, o que resultou na perda de alguns dedos. Após ser adotada por outra família, descobriu sua paixão por moda.
Desde cedo, Juliana desenhava e criava suas próprias roupas, enfrentando dificuldades no aprendizado. No entanto, adaptou-se e começou a aprender sobre pintura e costura.
“Moda sempre foi uma paixão. Era única em minha forma de criar”, explica.
Ela acredita que seu trabalho vai além da deficiência: “Minha condição é apenas uma parte de mim; são minha mente, meu olhar e a criatividade que dão vida aos vestidos.”
“Sintam-se à vontade para perguntar!”
Carolina Belfort, professora de educação física de 40 anos, mostra seu amor pela atividade física e pelo movimento. Ela trabalha em uma escola pública no Riacho Fundo, no DF, e incentiva alunos de todas as idades.
Em seu primeiro dia de aula, ela pede curiosidade aos alunos, encorajando perguntas sobre sua deficiência, resultado de um acidente ocorrido em sua infância. “As perguntas vão embora depois que eles me conhecem melhor”, diz.
Carolina é recebida com carinho, e seus alunos adoram a empolgação com que ensina. Ela os motiva a se afastar das telas e valoriza a importância do movimento.
Carolina lamenta que, durante sua infância, não foi incluída nas atividades escolares. “Os educadores tinham medo de que eu me machucasse,” recorda.
A luta deles, além da deficiência, é acentuada pelo gênero. “Eu tenho que provar meu valor duas vezes. Meu sonho é trabalhar mais próximo de pessoas com deficiência, mostrando novas perspectivas da vida.”
Navegando em águas abertas
A vida para Daniela Francescutti, arquivista de 56 anos e atleta surda, ganhou novos desafios na natação desde 2007. Participando de competições masters, ela se destaca nas provas de borboleta e medley.
Daniela se aventurou em águas abertas e, em 2021, começou a representar o DF em competições nacionais. Recentemente, trouxe três medalhas do Open Panamericano em Guaiaquil (Equador).
Participar das disputas a transformou: ajustou hábitos alimentares, melhorou o sono e passou a colaborar intensamente com a equipe.
“Eliminei o açúcar e isso mudou minha vida para melhor. Treino às 7h da manhã, e o sol me aquece após as atividades”, conta.
Para Daniela, a natação não se resume às medalhas, mas é um espaço sagrado para encontrar paz interior.
Conscientização
A secretária nacional de direitos da pessoa com deficiência, Isadora Nascimento, enfatiza a urgência de educar sobre o capacitismo no Brasil.
“As pessoas, frequentemente, reproduzem preconceitos sem perceber. Campanhas estão sendo desenvolvidas para explicar o conceito de forma acessível.”
Isadora exemplifica que termos como “surdo” ou “cego” costumam ser usados de forma depreciativa. Ela acredita que é crucial abordar este tema nas escolas e criar campanhas contínuas.
Ao discutir a urgência de assegurar direitos, Isadora salienta que fatores sociais devem ser levados em consideração. “Uma mulher negra com deficiência enfrenta mais opressões do que uma mulher branca, assim como uma pessoa LGBT com deficiência.”
Há um necessário planejamento para ampliar políticas públicas que garantam inclusão e oportunidades a todos, permitindo que sejam quem desejam.
Fonte: Agência Brasil/EBC








