Com trinta anos de distância, as marcas da exploração na Amazônia são visíveis. Em 1973, Jorge Bodansky, atuando como cinegrafista para uma emissora de televisão alemã, documentou um sobrevoo sobre Aripuanã (MT) e, por coincidência, capturou um grupo de indígenas Paiter Suruí em sua tentativa de atacar o avião com flechas. Essas imagens, que não foram exibidas na TV, permaneceram esquecidas até serem digitalizadas recentemente, despertando o interesse do cineasta.
“A intenção daquele sobrevoo não era registrar os indígenas; eles apareceram inesperadamente. Fiquei intrigado: quem eram aquelas pessoas?” Com essa reflexão, Bodansky iniciou a produção de seu mais recente documentário, Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky.
Exibido na mostra competitiva ambiental do Bonito Cinesur, festival de cinema que ocorre em Bonito (MT) até o próximo sábado (1°/8), o filme levanta questões sobre a história indígena e os impactos da exploração na região.
O cineasta optou por retornar ao local onde as filmagens foram feitas para descobrir mais sobre os indígenas que apareceram nas imagens e para documentar as mudanças ocorridas na paisagem após cinco décadas.
Ele comentou: “Esse processo de pesquisa acabou se entrelaçando à minha própria história, resultando em um filme autobiográfico que narra experiências que vivi.”
Mudanças
Ao longo dos anos, Bodansky notou que sua abordagem cinematográfica não sofreu alterações significativas. Ele declarou: “O título ‘Um Olhar Inquieto’ reflete meu contínuo desejo de observar e descobrir. Minha perspectiva em relação ao cinema, preocupações sociais e o estilo de aventura se mantêm inalterados.”
Por outro lado, a realidade dos Paiter Suruí e a região mudaram drasticamente. Muitos indígenas enfrentaram a morte por doenças e violência devido ao contato forçado, enquanto o ambicioso projeto Humboldt é agora apenas um vestígio em ruínas. A paisagem que ele registrou nos anos 70 deu lugar a vastas plantações de soja.
“O que aconteceu com esses indígenas é amplamente conhecido, e a transformação da floresta em terras agricultáveis é uma triste realidade.”
A nova produção de Bodansky expõe a continuidade da exploração da Amazônia, uma questão que remonta à época da ditadura militar. “O cenário de ocupação da Amazônia não mudou; as abordagens permanecem as mesmas independentemente do governo no poder.”
Ele enfatiza a importância de reconhecer os habitantes locais: “É fundamental lembrar que existem pessoas que vivem ali, que têm suas próprias aspirações e que lutam por elas.”
A solução para esses problemas, segundo Bodansky, se encontra na mobilização e organização das comunidades. “Atualmente, é possível observar várias comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas organizadas, com voz e propósito claro na defesa de seus direitos.”
Fonte: Agência Brasil/EBC








