As opiniões sobre a atuação de Marrocos na recente crise migratória em Ceuta, uma cidade espanhola localizada no continente africano, variam consideravelmente entre especialistas em relações internacionais. Nos últimos dias, mais de 50 mil imigrantes chegaram à região, resultando em aproximadamente 100 mortes.
Segundo Nuno Carlos de Fragoso Vidal, professor de História da África na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a magnitude do fluxo migratório só seria viável com algum tipo de consentimento por parte do governo marroquino.
Visões Contrastantes
O acadêmico angolano expressou à Agência Brasil que o governo de Pedro Sánchez na Espanha vem se aliando a grupos progressistas que defendem a independência do Saara Ocidental. Essa abordagem, de acordo com Vidal, irrita o rei Mohammed VI de Marrocos, que poderia avaliar a imigração em massa como uma forma de retaliação.
“Essa migração não ocorreu sem a anuência das autoridades marroquinas, principalmente devido ao apoio a grupos como a Frente Polisário, que é respaldada pela Argélia,” argumentou.
Por outro lado, José Luís Del Roio, ex-senador italiano e especialista em questões europeias, acredita que Marrocos tem um controle rigoroso sobre seu território, tornando improvável que uma quantidade tão grande de jovens conseguisse escapar sem que o governo estivesse ciente.
“É inaceitável que 80 mil jovens possam sair sem que haja intervenção. Se nada foi feito, é porque foi uma escolha do governo marroquino,” declarou.
Para Del Roio, a situação foi possivelmente também manipulada por fatores externos, como Israel, que teria interesses ligados à tensão entre o governo espanhol e a Palestina.
Desespero Jovem
Em contraposição, Mohammed Nadir, professor marroquino na Universidade Federal do ABC, afirmou à Agência Brasil que não há provas concretas de que Marrocos tenha orquestrado tal ânsia migratória. Ele destacou que a política espanhola de reconhecimento do projeto marroquino para o Saara em 2022 ajudou a reduzir as hostilidades entre os dois países.
Durante uma visita a Marrocos no início da crise, Nadir observou que a juventude local, pressionada por falta de oportunidades e altos custos de vida, buscava desesperadamente uma vida melhor na Europa.
“O desencanto com a alta de preços e a falta de emprego está fazendo muitos marroquinos sonharem com a emigração,” disse ele.
Tensões Espinhais
Um relatório da inteligência espanhola, conforme apontado pelo jornal El País, indicou que embora Marrocos não tenha planejado a imigração em massa, havia um consentimento tácito para a movimentação dos migrantes, que foi usada para interesses políticos.
Observou-se que em uma crise anterior em 2021, a Espanha havia acusado Marrocos de facilitar a imigração através do relaxamento dos controles de fronteira, evidenciando a aplicação de políticas anti-imigração que se tornaram mais rigorosas na Europa desde então.
Questões Geopolíticas de Enclaves
Em uma análise adicional, Nuno Carlos de Fragoso Vidal enfatizou que Marrocos não estaria sob o domínio de potências externas como os EUA ou Israel, mas suas ações podem estar ligadas a manifestações geopolíticas que envolvem as cidades espanholas de Ceuta e Melilla, que ocupam território marroquino e têm relevância estratégica na região do Estreito de Gibraltar.
Além disso, a relação entre Marrocos e Espanha permanece tensa, especialmente com o governo Sanches se aproximando de setores mais radicais, contradizendo a expectativa de que o reconhecimento do projeto marroquino traria paz.
Recentemente, o primeiro-ministro espanhol viajou à Argélia e discussões sobre dar cidadania espanhola aos saarauis, nascidos durante a ocupação, têm aumentado os atritos entre as nações.
Elogios e Desconfiados
Ainda assim, as autoridades espanholas têm reconhecido a colaboração de Marrocos na atual crise, mencionando que o país tem cooperado na deportação de imigrantes irregulares. O ministro das relações exteriores, José Manuel Albares, declarou que, ao contrário de 2021, Rabat está se esforçando para amenizar o fluxo migratório.
Entretanto, o presidente de Ceuta, Juan Jesus Vivas, denunciou que Marrocos não é um parceiro confiável, exigindo respeito absoluto por parte da Espanha em relação a suas fronteiras.
Respostas de Marrocos
Recentemente, o governo marroquino emitiu uma declaração defendendo que a crise foi alimentada por desinformação. Rachid El Khalfi, porta-voz do ministério do interior, enfatizou que os eventos foram manipulados por informações distorcidas, criando uma falsa expectativa de acesso ao espaço europeu sem restrições legais.
Fonte: Agência Brasil/EBC








