A implementação de um novo modelo de conservação em Caracaraí, Roraima, constitui um avanço significativo na preservação florestal, unindo tecnologia e responsabilidade socioambiental, com foco na competitividade do mercado de carbono. O projeto abrange uma extensa área de 14 mil hectares.
Esta iniciativa é liderada pela ZEG (Zero Emission Goal), uma empresa de São Paulo especializada em soluções para descarbonização. O projeto se mostra uma alternativa viável diante da ameaça de desmatamento legal, que é a principal causa das emissões de gases de efeito estufa no Brasil.
Novas parcerias emergem
- Vacinação é ampliada em comunidades indígenas da Amazônia.
- Imazon aponta desmatamento zero em 60% de terras indígenas na Amazônia.
- Desmatamento na Amazônia cai 36,87% no último ano.
Este modelo é uma resposta direta ao acúmulo de gases na atmosfera, que contribuem para o aquecimento global e intensificam as mudanças climáticas, resultando em fenômenos climáticos extremos.
Carlos Jacob, CEO da ZEG, destaca que a área pertence a um produtor de Goiás que havia pedido autorização para desmate legal. “O proprietário adquiriu essa vez que Roraima teve sua reserva legal reduzida”, revela Jacob.
O Código Florestal Brasileiro, conforme estabelecido pela 1Lei 12.651/2012, permite que estados como Roraima diminuam a reserva legal para até 50% nas propriedades, desde que se respeitem as diretrizes de zoneamento ecológico. Embora a reserva ideal para a área amazônica fosse de 80%, o zoneamento concluído em 2022 possibilitou que o produtor desmatasse a metade da propriedade para cultivo de soja.
“Ao tomar ciência do pedido de supressão de vegetação, buscamos um contato com o produtor. No início, ele estava incerto sobre o projeto, mas abraçou a ideia e os benefícios que ela traz”, completa Jacob.
Uma abordagem inovadora
A ZEG apresentou um modelo que prevê investimentos em tecnologia para monitoramento de incêndios, além de programas voltados para as comunidades que coletam castanha-do-Pará. A certificação dos estoques de carbono também faz parte do escopo do projeto.
Após a autorização do proprietário, a ZEG realizou um trabalho jurídico para assegurar direitos de posse, estabelecendo um contrato de 40 anos para a comercialização do carbono. Essa mudança é fundamental para restaurar a confiança de investidores, especialmente após a crise enfrentada pelo mercado de conservação entre 2021 e 2023, que ficou marcada por estimativas exageradas de mitigação e pela venda de créditos em áreas sobrepostas a terras públicas.
“Compreendemos que devíamos agir de forma distinta no mercado de conservação”, afirma Jacob.
Estratégias de combate a incêndios
O projeto inclui uma torre de 60 metros equipada com tecnologia de ponta para detectar focos de incêndio, utilizando câmeras combinadas com um programa de inteligência artificial. “Em menos de três minutos, temos um relatório detalhado do local do incêndio, permitindo mobilização rápida da equipe de campo”, explica Cineone Silva, coordenador de operações.
Com um total de 20 profissionais locais treinados em combate a incêndios, a ZEG se preocupa não apenas com suas atividades, mas também com o impacto em comunidades vizinhas, que têm um papel importante na gestão do fogo.
“O incêndio é o nosso maior desafio, por isso priorizamos investimentos em infraestrutura para combate a este risco”, destaca Jacob.
Impacto na comunidade local
As 36 famílias que habitam os assentamentos próximos, dependentes da coleta de castanha-do-Pará, mantêm suas atividades produtivas. João Inácio Neto, um extrativista da região, relembra os desafios enfrentados ao longo dos anos devido à expansão do agronegócio e ao uso intensivo de defensivos agrícolas.
“Cresci neste estado e presenciei mudanças drásticas com a chegada do agronegócio. Temia que não conseguiríamos mais coletar, mas esse projeto trouxe esperança”, comenta.
A parceria entre a ZEG e a comunidade resultou na formação da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar), fortalecendo o trabalho coletivo entre as famílias. No ano passado, elas conseguiram unir forças para uma venda mais eficiente, garantindo melhores preços e acesso ao mercado.
“Nesta safra, notei melhorias significativas. Temos organizado melhor nossas vendas, algo que não acontecia antes; ao trabalhar juntas, conseguimos negociar de forma mais vantajosa”, menciona Eliane de Sena, secretária da Agrocar.
Jacob ressalta a importância de fortalecer a logística local, permitindo ainda a utilização do ouriço da castanha. “Precisamos reimaginar o desenvolvimento, enfatizando a economia da floresta viva e valorizando seus produtos”, conclui.
A competitividade no mercado de carbono
O investimento total no projeto chega a R$ 20 milhões, cobrindo a certificação dos estoques de carbono. Jacob explica que a certificação segue normas rigorosas, passando por auditoria da Earthwood, uma empresa indiana, além da Verra.
Embora o processo de comercialização de carbono não tenha ocorrer ainda, a iniciativa já conquistou uma classificação AA pela BeZero, destacando-se como o primeiro projeto de carbono na Amazônia e o primeiro do mundo voltado ao desmatamento evitado.
Fonte: Agência Brasil/EBC








