Na terça-feira (18), um cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi deu início à cerimônia que formalizou a entrega de um prédio histórico da era imperial, que será convertido em um museu dedicado ao Cais do Valongo, um marco da presença africana no Brasil.
O imponente Edifício Docas André Rebouças está situado em frente ao sítio arqueológico do Cais do Valongo, no centro portuário carioca, separados apenas por uma rua.
Contexto Histórico
Descoberto em 2011 durante projetos de revitalização da área, o Cais do Valongo remonta a 1811 e é testemunha da chegada de cerca de um milhão de africanos escravizados nas Américas. Hoje, essa área é um sítio de visitação ao ar livre, porém carece de infraestrutura, exigindo que os visitantes enfrentem as intempéries para conhecer as escavações.
Recepção aos Visitantes
Deyvesson Gusmão, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), frisou que o novo espaço servirá como um local de acolhimento. “É essencial que a narrativa sobre a importância desse sítio arqueológico, tanto para o Brasil como para o mundo, seja divulgada neste novo prédio,” comentou.
O centro não apenas abrigará o acervo de cerca de um milhão de artefatos encontrados na área do Valongo e adjacências, mas também irá resgatar a memória da Pequena África, que marca a chegada dos africanos ao Brasil.
O Cais do Valongo, reconhecido como patrimônio cultural da Humanidade pela UNESCO, também é validado como patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro por uma Lei Federal.
O investimento para transformar o antigo edifício em um Centro de Interpretação da Herança Africana está estimado em R$ 77 milhões, sendo financiado pelo orçamento federal. As obras devem se estender por três anos.
Homenagem a André Rebouças
O endereço histórico abrigará também o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana e um memorial em honra a André Rebouças, um engrenagem-chave no movimento abolicionista e o primeiro engenheiro negro do Brasil, cuja obra foi concluída em 1871 sem o uso de mão de obra escravizada.
Um Acervo Valioso
João Jorge Santos Rodrigues, presidente da Fundação Cultural Palmares, enfatizou que o acervo no novo local deve exceder um milhão de itens. “A pesquisa, identificação e recuperação desse patrimônio se estenderá por décadas”, revelou, considerando os tesouros que já foram detectados, como anéis, cachimbos e vestuário, que estiveram em exibição em outros museus.
Margareth Menezes, Ministra da Cultura, enaltece o novo espaço como uma forma de reparação por séculos de escravidão, afirmando que toda a população deve estar unida nesse esforço por justiça e igualdade.
A Importância do Comitê Gestor
O Cais do Valongo conta com um comitê gestor que inclui representantes dos três níveis de governo e da sociedade civil. Nilson Moreira, um dos membros e representante da Casa da Tia Ciata, acredita que a renovação do espaço será um divisor de águas para a região. “É crucial que aqueles que não conhecem a história do Cais do Valongo tenham acesso a informações e experiências ricas ao visitá-lo,” disse.
Nilson acrescenta que o comitê trabalha para preservar a essência da região, pois a perda dessa identidade comprometeria seu significado histórico.
Pequena África: Um Legado Cultural
A Pequena África, uma das áreas mais visitadas do Rio de Janeiro, é um testemunho geográfico da chegada de africanos escravizados ao país. Um passeio pela região proporciona uma profunda imersão na herança africana e sua influência na formação das identidades carioca e brasileira.
Pontos significativos como o Quilombo da Pedra do Sal, o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) e o Cemitério dos Pretos Novos estão localizados nas proximidades, completando a narrativa de um passado rico e muitas vezes esquecido.
Além disso, a prefeitura está erguendo o Centro Cultural Rio-Áfricas nas mediações do futuro Centro de Interpretação da Herança Africana, que visa celebrar a ancestralidade afro-diaspórica por meio de exposições e atividades educativas.
Fonte: Agência Brasil/EBC







