No final da década de 1970, durante o regime militar, um grupo de poetas jovens se reunia em praças públicas para recitar seus versos e desafiar a repressão vigente. Assim, nasceu o coletivo Poetas na Praça, formado por estudantes baianos que buscavam usar a poesia como uma forma de resistência cultural, política e social.
Ametista Nunes, uma das dez fundadoras desse movimento e a única mulher em seus primórdios, recorda: “Em 1979, quando tudo começou, era um período em que as poesias e músicas eram censuradas. Artistas estavam exilados ou enfrentavam a morte, enquanto muitos desapareciam de forma trágica”.
Artigos em Destaque:
- Celebração dos 25 anos sem Jorge Amado na Flipelô.
- Flipelô inicia em Salvador com grandes atrações.
- Lançamento de livro infantil da poeta Myriam Fraga na Flipelô.
De acordo com Ametista, o grupo realizava uma forma de desafio frente aos poderes estabelecidos, realizando suas declamações em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, na Praça da Piedade, um lugar histórico onde escravos foram enterrados.
“Ali, recitávamos exclusivamente poesias subversivas. Era uma provocação clara”, enfatizou.
Durante uma conversa com a Agência Brasil, Ametista sublinhou que a poesia serviu como uma ferramenta vital de combate à repressão na época, e que a arte continua sendo essencial nos dias atuais.
“Se não inserirmos a arte nesse contexto social, nunca conseguiremos alcançar mudanças nas mentes e corações”, acrescentou após uma mesa de discussões sobre o legado do coletivo.
Fundamentalização da Poesia
Durante análises do impacto do movimento na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), a poeta Semírames Sé destacou como a provocação era uma característica marcante do grupo. “A poesia sempre foi nossa batalha e nosso grito por igualdade e comunhão. Assim, cheguei à Praça da Piedade”, relatou.
Além de promover a democracia, esses jovens contribuíram para a popularização da poesia, como explicou Douglas de Almeida, um membro do movimento: “Antes, a poesia parecia inatingível, mas nós a tornamos acessível com uma linguagem mais coloquial e direta, ressoando assim com os frequentadores da praça”.
Ele também mencionou a importância do aspecto educativo do movimento. “Realizamos um trabalho para incentivar a leitura, produziamos antologias que incluíam não apenas nossos versos, mas também de poetas renomados como Manuel Bandeira e Cecília Meireles, ajudando a difundir a poesia brasileira.”
“Quando as pessoas chegavam à praça, elas se deparavam com um mundo vasto de poesia, proporcionando uma experiência rica àqueles que não tinham o costume da leitura”, ressaltou o poeta.
Mesmo que suas obras fossem centradas na luta contra a opressão, esses poetas também encontraram espaço para expressar o amor. “Apesar do nosso direcionamento político, dedicávamo-nos igualmente a compor poemas românticos”, disse Almeida, citando que “quanto mais amor se entrega, mais beleza o amor revela”.
Sobre a Flipelô
A Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) é reconhecida como a maior da Bahia. Esse ano, a décima edição do evento promete atrair mais de 250 mil participantes com uma programação rica e diversificada, que se estende até o próximo domingo (9).
Informações adicionais sobre a Flipelô estão disponíveis em seu site.
* A repórter e a fotógrafa participaram da Flipelô a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial do evento.
Fonte: Agência Brasil/EBC








