A recente derrota do presidente Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, que resultou na perda da maioria republicana tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, poderá ter profundas repercussões na política americana em relação à América Latina. Essa reviravolta pode inibir as frequentes intervenções da Casa Branca na região, além de possibilitar um entendimento mais favorável em relação ao Brasil, especialmente no que diz respeito às tarifas comerciais.
A gestão de Trump tinha como pilares a afirmação da “proeminência” americana e a prevenção da influência econômica chinesa nos países da América Latina e do Caribe. Essa abordagem muitas vezes se refletiu em ações contundentes, como a intervenção na Venezuela, onde a administração buscou limitar a influência de Pequim em favor dos interesses americanos.
Repercussões da Nova Composição do Congresso
A professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), comentou que um Congresso dominado pelos democratas poderá estabelecer diversas restrições para a administração Trump, especialmente no que tange a financiamentos para operações no exterior e investigações sobre membros do governo.
“A defesa do setor é um ponto crucial. É provável que o Congresso imponha limitações a investimentos nessa área. Isso poderá impactar a política americana na América Latina, resultando em um suporte menor ao Escudo das Américas, o que os países da região poderão perceber como uma diminuição nos recursos dedicados a ações intervencionistas”, fez uma análise a especialista.
Uma das principais iniciativas do governo Trump, o Escudo das Américas, foi criado supostamente para combater cartéis de drogas, mas a crítica é que isso se transforma em uma ferramenta de controle e interferência por parte dos EUA na região.
No contexto da Bolívia, esse projeto foi utilizado para a detenção do procurador-geral, Roger Mariaca, sob acusação de conivência com o narcotráfico. A prisão de Mariaca gerou polêmica, especialmente por sua ligação ao operador digital Fernando Cerimedo, que tem vínculos com a estratégia de Trump e já trabalhou com presidentes argentinos e bolivianos.
Questões Tarifárias e Relações Comerciais
Além das intervenções, outra frente de discórdia foram as tarifas impostas por Trump ao Brasil, vistas pelo governo brasileiro como uma maneira de influenciar as eleições de outubro, favorecendo opositores de Luiz Inácio Lula da Silva.
Juliano Machado Pires, doutor em Ciência Política, observou que a derrota de Trump pode estimular uma aproximação entre as partes. “Se o governo aprendeu algo, é que melhorar a economia está em primeiro lugar. Conflitar com o Brasil neste contexto não parece ser uma estratégia sensata”, argumentou.
Ele acrescentou que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, enfrentará maiores desafios ao lidar com um Congresso em sua maioria democrata, o que poderá forçá-lo a se concentrar em negociações significativas com o Brasil, envolvendo tarifas e parceria em áreas como recursos raros e data centers.
No entanto, não se pode descartar que a administração Trump busque desviar o foco de crises internas por meio de “factóides” externos.
Fonte: Agência Brasil/EBC








