A 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo marca um marco significativo no cenário cultural da cidade. De 1992, quando Ubiratan Brasil, conhecido como Bira, assistiu a uma exibição pouco frequentada, muitos aspectos mudaram.
Naquela ocasião, Bira se recorda de um filme americano e do diretor presente, que contava com apenas 16 espectadores numa sala do Museu de Arte de São Paulo (Masp). O diretor, então um nome desconhecido, expressou sua gratidão pelo público, que ainda se abrigava dentro daquele espaço em um sábado ensolarado.
O filme era Cães de Aluguel, de um certo Quentin Tarantino. Bira reflete sobre a experiência, afirmando que, nunca mais, um filme seu seria visto por tão poucos. “A mostra sempre nos ofereceu novas surpresas”.
A celebração dos 50 anos da mostra destaca a exibição de 11.692 filmes, trazidos por 8.474 cineastas de várias partes do mundo. Diretores renomados como Wim Wenders, Pedro Almodóvar e Jafar Panahi marcaram presença durante o festival, ampliando as fronteiras do cinema no Brasil.
Bira destaca que o festival apresentou uma real aventura cinematográfica, possibilitando que os paulistanos tivessem acesso a obras de diversas culturas, como filmes indianos com legendas em idiomas como o italiano. Anteriormente, o público estava restrito a filmes de grande apelo comercial.
Trajetória da Mostra
A primeira edição ocorreu em outubro de 1977, sob a coordenação de Leon Cakoff. A mostra surgiu como parte das celebrações do 30º aniversário do Masp e, apesar da limitação na divulgação, atraiu mais de 15.000 espectadores, exibindo 23 filmes de 17 países. Um dos destaques foi Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, que recebeu aclamação na sua projeção.
Bira se tornou frequentador assíduo a partir da 4ª edição, onde assistiu a dois filmes, A Cidade das Mulheres, de Fellini, e O Tambor, de Volker Schlöndorff, e nunca mais deixou de participar, organizando suas férias durante o evento.
“Comecei a me programar para estar presente todo ano, assim como muitos fazem hoje em dia”.
A veterana Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, que acompanha o evento desde sua primeira edição, recorda que, mesmo com poucos filmes, a mostra era uma janela para um mundo novo em tempos de censura. A cada ano, a iniciativa era aprimorada por Cakoff, tornando-se um ponto de redescobertas cinematográficas.
Vanda, que já assistiu até sete filmes em um único dia durante o festival, ressalta seu valor como um “gerador de ideias”, contribuindo na formação de cineastas e críticos. Ela enfatiza que, até 2000, o acesso ao digital era escasso e a mostra era a principal conexão com novas linguagens e expressões.
“Frequentadores se tornaram profissionais da área, conectando-se com outros estilos de cinema, ampliando suas percepções além da tela”.
A mostra também contribuiu para a formação de novos públicos, através de sessões gratuitas e eventos em áreas periféricas, transformando-se em uma grande confraternização entre fãs de cinema. Vanda destaca que realiza encontros com amigos após o festival, mas prioriza ver os filmes durante o evento.
Bira acredita que uma das maiores riquezas da Mostra é a experiência de ver filmes em sala de exibição, uma prática cada vez mais rara na era das telinhas. “É uma oportunidade de descobrir talentos e narrativas diferentes no cinema”, afirma.
Resiliência em Tempos Desafiadores
Desde sua estreia, o festival nunca deixou de ocorrer, nem mesmo durante a pandemia, período em que se reinventou com exibições online e drive-in, mantendo sua essência.
Com uma trajetória que inclui o reconhecimento de mais de 460 filmes em algumas edições, a Mostra sempre se adaptou às circunstâncias financeiras. Renata de Almeida, atual diretora, reflete sobre essa flexibilidade: “A mostra é como uma dança, podendo ser grandiosa ou mais contida, conforme a necessidade”.
Neste ano, a Mostra apresentará 380 filmes de 93 países, acompanhada por exposições, shows, debates e o lançamento de uma plataforma de acervo. Um dos livros em destaque, Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças, traz histórias vivenciadas por Renata e sua ligação com o festival.
Renata relembra que sua jornada começou em 1989, na 13ª edição. “Estive envolvida neste projeto por 37 anos e para mim, é uma parte indissociável da minha vida”.
Fonte: Agência Brasil/EBC








